Mais de 12 milhões de pessoas traficadas
"As marcas da escravatura e da segregação, e também da tolerância e miscigenação na convivência cultural e religiosa em Lisboa, ao longo de 700 anos", estão patentes ao público numa exposição no Museu de Lisboa - Palácio Pimenta, até ao próximo dia 22 de Dezembro.
A mostra consta de pinturas, desenhos, lápides, documentos, esculturas, ex-votos e outros objectos provenientes do acervo do próprio Museu de Lisboa, e de várias outras entidades. Há peças raras, ou nunca mostradas antes em contexto museológico, segundo os curadores, como as lápides moçárabes, ou um ex-voto do século XVII, com uma pintura que representa Nossa Senhora do Rosário com dois negros a seus pés.
A história de Lisboa, a sua construção e identidade, tem por base uma multiplicidade de contributos, desde a inclusão dos povos que a habitaram, até à rejeição, segregação, expulsão e escravatura, que também acolheu ao longo de séculos.
"Esta Lisboa multicultural - retratada desde a Idade Média - foi criada por muçulmanos, cristãos e judeus, e também por espanhóis, franceses, ingleses, italianos, flamengos, alemães e galegos, e por africanos da era da escravatura", explicam os historiadores que a propósito desta exposição se referem a um vasto mapa com "rotas da escravatura entre África, Américas e Europa, traçadas por portugueses, ingleses, espanhóis e holandeses, entre outros povos.
Estas rotas contabilizam mais de 12,5 milhões de pessoas traficadas durante cerca de 400 anos, do século XVI ao século XIX, segundo as estimativas do Trans-Atlantic Slave Trade Database (Banco de Dados do Tráfico Transatlântico de Escravos), iniciativa da Universidade de Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos, com apoio do National Endowment for the Humanities, de Washington, do Instituto Hutchins, da Universidade de Harvard, e do Instituto Wilberforce, da Universidade de Hull, no Reino Unido.
De acordo com estes dados, Portugal e Brasil (após a independência, em 1822) foram responsáveis pelo tráfico de 5,8 milhões de africanos, o que representa quase metade do total".
O processo da abolição da escravatura em Portugal estendeu-se por mais de cem anos, dos primeiros decretos, com proibição no continente e na Índia, que remontam a 1761, até à abolição total, em todo o território português, proclamada em 1869.

João Godim
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