"A minha pátria é a língua portuguesa" escreveu Fernando Pessoa, no primeiro quartel do século XX. Se fosse vivo o poeta teria muito provavelmente outra opinião ao ver o desleixo dado à língua portuguesa. O património linguístico português nunca foi tão maltratado, a começar pelos governantes, políticos, escritores e jornalistas. Para apurar a qualificação de alguns professores da língua materna, o governo decidiu submeter a exame os interessados em continuar a dar aulas. Dos 106 professores que fizeram a prova de português 60 por cento teve nota negativa. Noutras disciplinas, outras tantas notas negativas. Se quem ensina não sabe, se quem manda não sabe, como podemos querer um país melhor?
Faz-me lembrar o diálogo entre pretos e brancos na Guiné-Bissau, nos tempos da guerra colonial. Eles, os pretos, falavam crioulo mas diziam que falavam português e nós, os brancos, falávamos português mas para eles era como falar numa língua diferente. Nem eles falavam português nem nós falávamos crioulo. Uma salada de palavras. O acordo ortográfico é, figurativamente um pouco de tudo isto, um "mar de ilusões". Nos Palops é uma coisa nova que os brancos do Brasil inventaram com a conivência dos portugueses (de Portugal). A língua portuguesa perdeu a sua verdadeira pátria. Diz Sanhá que "na Guiné temos o crioulo para falar e o português para as coisas escritas". A língua portuguesa "nem é branco nem é preto". Uma prática que vem de longe, como se vê na imagem.

João Godim
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