Um peregrino da cultura portuguesa
No próximo dia 28, irá realizar-se na Universidade de Oxford (Inglaterra) um colóquio sobre a obra de Helder Macedo, em parceria com a Universidade de Coimbra. O evento visa assinalar o aniversário natalício do escritor e professor universitário, que fará 80 anos, no dia 30, por sinal a data em que também se lembra a morte do poeta Fernando Pessoa (30 de Novembro de 1935); e insere-se ainda na publicação de dois novos livros deste autor sénior, apresentados recentemente em Lisboa: "Romance", um longo poema e uma narrativa onde se cruzam várias vivências, "memórias, mitos, despojos de guerra no exílio da vida, ecos bucólicos de Bernardim Ribeiro, autoestradas nos subúrbios das cidades sitiadas e amores tão antigos como o tempo do mundo"; e "Resta ainda a face", uma antologia de 32 poemas.
Especialista em Cesário Verde, Bernardim Ribeiro e Camões, Hélder Macedo é Professor Emeritus do King´s College na Universidade de Londres, onde foi titular da Cátedra Camões, até 2004; Professor visitante da Universidade de Harvard e de Universidades em França, Espanha e no Brasil; antigo diretor geral das Artes do Espectáculo, em 1975, e Secretário de Estado da Cultura, entre 1979 a 1980, no Governo de Lurdes Pintasilgo, é um reconhecido poeta, romancista e ensaísta, membro da Academia de Ciências de Lisboa e do King's College, e recebeu até agora muitas distinções.
O itinerário da sua vida, quase de peregrino, evoca etapas de grande importância para a cultura portuguesa, referências únicas que ainda hoje estabelecem pontes entre o passado (clássico) e o presente (moderno). Nasceu na África do Sul, viveu em Moçambique até aos doze anos e em Portugal, até 1959, onde chegou a frequentar a Faculdade de Direito de Lisboa.
O primeiro livro que publicou foi de poesia - Vesperal (1957), e logo foi saudado por Jorge de Sena como sendo dos «mais perfeitos que por esse tempo se publicaram», denotando «um equilíbrio refinado» e um «notável domínio da expressão e do ritmo». Ainda nessa época, fez parte do movimento Grupo do Café Gelo, uma tertúlia de intelectuais, com Herberto Hélder, entre outros.
A participação nessa tertúlia sugeria uma atitude de oposição ao antigo regime político e, como tal, foi censurado, perseguido e preso, acabando por exilar-se em Inglaterra. Foi colaborador regular da BBC, de 1960 a 1971. Licenciou-se em Literatura e História e doutorou-se em Letras na Universidade de Londres. A par da publicação de livros, atualmente, Hélder Macedo é muito solicitado para dar conferências e escreve crónicas no Jornal de Letras (JL).
Numa breve autobiografia, publicada no JL, disse que escrevia "poesia para se conhecer e prosa para compreender os outros. A minha curiosidade incide agora mais sobre os outros do que sobre mim próprio. Estou mais interessado em modos diferentes de ser do que em quem sou. Daqui a nada vou morrer, já vivi muito, gosto de ter vivido muito e de ainda estar vivo, de modo que o melhor é aproveitar o pouco tempo que me sobra para imaginar tantas vidas que não são minhas quantas ainda possam caber na minha vida.
Não para ser quem não sou, repare. A minha loucura não vai a esse ponto. Isso é com o Fernando Pessoa. Pelo contrário, esta é a minha saúde mental, direi mesmo que é a minha juventude de quase 80 anos. Quando era jovem, como todos os jovens, gostava de imaginar quem iria ser. Agora gosto de imaginar quem não sou."

João Godim
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