"A Morgadinha dos Canaviais", um dos famosos títulos da obra literária de Júlio Diniz, faz agora 150 anos. Trata-se de um romance (misto de romantismo e realismo) passado no século XIX, no norte de Portugal, e que narra a história de Henrique de Souselas que, cansado de viver em Lisboa, vai para a província morar com uma tia e lá se apaixona por Madalena, a "Morgadinha", com muitas peripécias pelo meio.
Com uma escrita naturalista, Júlio Diniz (pseudónimo literário do médico portuense Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839- 1871), foi um escritor de altos méritos, autor de um obra intensa só travada pela morte precoce aos 31 anos de idade, devido à tuberculose.

(Estátua de Júlio Diniz na rua da Carreira / Funchal)
Passou a maior parte do tempo a tratar dos livros e da saúde, procurou cura em Ovar e no Funchal..., e não conseguiu fugir à popularidade. Esteve três vezes na Madeira e habitou uma casa na Rua da Carreira, local que hoje está assinalado com uma estátua em bronze.
"Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do teu sol benéfico! Que lustrosos desenlaces de tantas histórias de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso, que se apresse a escondê-las discreto! E à sombra das tuas árvores quantas fontes escaldando de febre vergaram sob o peso da cruel melancolia!
(...) Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transportadas em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa meditação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia...

(Funchal nos anos 70 do séulo XIX).
São ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses descarnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos, crianças, vaporosas belezas femininas de toda a parte do mundo, todos a convencer-nos de que estamos na cittá dolente, mas no pórtico desta não se lê gravado o dístico desesperador que o poeta inscreveu no da região das tormentas eternas. Pelo contrário, à entrada aqui revestem-se de esperança os próprios condenados.
Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do Oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as freguesias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo o seio fecundidíssimo aos nossos olhos." (…)
Júlio Dinis (excerto de uma carta escrita a José Pedro da Costa Basto aquando da sua segunda visita).

João Godim
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