A presença de judeus no território português ficou na História com enorme influência em vários campos do saber e, em particular, junto dos que detinham o poder de governar; para já não falar das dramáticas "perseguições" e "conversões" à força, culminando com a expulsão em massa durante o reinado de D.Manuel I.
Muitas personalidades de origem judia, e de cidadania portuguesa, também se destacaram e os seus nomes ou apelidos estão entre os mais notáveis que contribuiram para o nosso progresso científico e outros, por exemplo, os descendentes da família Bensaude.
No Funchal, há profundas marcas da vivência judaica, como atestam a construção de uma Sinagoga (edifício ainda de pé) na Rua do Carmo e de um cemitério na rua do Lazareto.

> Marck Athias
Em referência a importantes judeus "madeirenses", digamos assim, temos o famoso médico Marck Athias, nascido no Funchal em 1875 e falecido em Lisboa em 1946. Foi catedrático de Fisiologia da Universidade de Lisboa e ficaram célebres as suas investigações sobre o sistema nervoso e sobre o Cancro.
Outra personalidade de origem judia que pontificou nos meios funchalenses foi João Wetzler, comerciante de bordados e antiguidades, que chegou à Madeira como refugiado, fugindo às perseguições da II Grande Guerra, quando as tropas alemãs invandiram Praga, em 1939.
Não se conhecem muitos pormenores da sua identidade e fortuna, mas há testemunhos de quem com ele conviveu de perto e aprendeu dele o ofício de negociar "coisas antigas, belas e boas", como foi o caso de João Silvério Caires que foi empregado do sr. Wetzler, entre 1946 e 1949; e do seu motorista João Vasconcelos Júnior.

> Sinagoga do Funchal
O que fica da memória de João Wetzler é que ele soube "despertar o interesse e o gosto dos madeirenses por antiguidades que antes dele não existiam".
Quando faleceu, no Funchal, em Junho de 1966 (um dia após ter completado 70 anos de idade), na sua Quinta da Saudade, um jornal da capital madeirense descreveu-o como "importante comerciante e industrial nesta cidade e um dos mais afamados antiquários de toda a Península Ibérica".
Um mês após a sua morte, "333 peças de prata fina" e muitas outras "preciosidades" foram entregues ao Museu da Quinta das Cruzes, através da então Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, conforme deixara escrito no seu testamento. Uma exposição que continua patente ao público, na capital madeirense.


João Godim
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