A primeira vez que fui desesperadamente à janela foi para ver a cidade do Funchal. Deve ter sido dois dias após ter dado entrada no hospital com um acidente vascular cerebral. Como descrever? Primeiro a assustadora incapacidade para manter-me de pé, Lembro-me de como durante segundos o corpo fraquejou e acabei por cair. Ninguém consegue pensar naqueles confusos instantes. Na guerra em África (Guiné) estive debaixo de fogo do inimigo, em várias ocasiões, vi camaradas morrer ao meu lado, mas estava de posse de todas as capacidades físicas e mentais. As energias eram outras.

Na janela do hospital estava só, a mente entra num rodopio tremendo. E agora? Estava transtornado. A janela foi o sol radiante da minha recuperação. Não houve milagres! Passados cerca de seis meses estava reabilitado! Daqueles momentos, o que me impressiona e que ainda hoje retenho é o impacto da luz e do sol pela janela do hospital. Nunca vou olvidar. Janelas do nosso ver o mundo, por muito limitado que seja o horizonte. Sempre que espreito pela janela, vejo tudo o que quero ver…luz e esperança.

João Godim
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