O Estado não vai para a prisão
Quem não consegue rir de si próprio, não poderá entender o essencial da vida e as práticas que movem a subsistência/sobrevivência do ser humano. É salutar rir, para bem de todos, individual ou colectivamente falando, sem medo de represálias, porque as tristezas não pagam dívidas e a brincar se alteram os costumes (segundo os romanos).
Nada de novo, portanto, no caminhar de séculos da humanidade de que fazemos parte e em que nos gabamos de ser os mais "espertos" e "esclarecidos" de todos os tempos, mas "falhados" da verdadeira "liberdade" e "autonomia", como nos fazem crer certas ideologias e poderes políticos. Neste aspecto do "poder", por exemplo, há uma realidade incontornável e que é sobre quem "pode/deve" suportar mais e suportar menos "impostos".

A questão, de facto, não é nova, suscita vários pareceres e opiniões, mas tem um quê de cómico, como nos relata Antoine Rault (dramaturgo e romancista francês, n. em 1965), na peça de teatro "O Diabo Vermelho", através do diálogo fictício entre Jean-Baptiste Colbert (político francês que ficou conhecido como ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV; e o Cardeal Mazarino, personalidade influente na Corte Luis XIV).
As personagens são reais, embora o diálogo seja "inventado" e "adaptado" para uma peça teatral, mas o tema pode-se reportar aos tempos actuais, apesar de já terem passados 400 anos...
Veja-se então um excerto desse diálogo:

> Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…
• Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado… o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!
> Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
• Mazarino: Criam-se outros.
> Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
• Mazarino: Sim, é impossível.
> Colbert: E então os ricos?
• Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
> Colbert: Então como havemos de fazer?
• Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

João Godim
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