Há 60 anos, a 12 de Março de 1959, um grupo de militares e civis protagonizou em Lisboa o movimento que passaria à História como "Revolta da Sé", contra o regime de ditadura de Oliveira Salazar. Eram tempos de um governo "todo poderoso", mas que não conseguia evitar a condenação pela falta de liberdade política.
A "revolta" acalentava ainda a força manifestada por milhares de portugueses à volta da candidatura do general Humberto Delgado à presidência da República, em 1958, cujos resultados foram depois denunciados como uma "burla eleitoral" a favor do regime vigente.
"A revolta da Sé" foi assim designada porque os conspiradores reuniram-se na Sé de Lisboa, de que era pároco o padre João Perestrello de Vasconcelos (1930-2009), um dos participantes no golpe. A maioria dos revoltosos tinha uma consciência cívica acima da média, provinha dos grupos da Acção Católica e incluía também jovens militares.

Sé de Lisboa
O "golpe", que se propunha derrubar o governo de Salazar, não alcançou os seus objectivos e os seus principais responsáveis foram presos ou condenados ao exílio.
Quanto ao padre João Perestrello de Vasconcelos, sabe-se que era natural de Lisboa, foi ordenado sacerdote em 1953 e teve como primeira responsabilidade pastoral o cargo de Capelão do Arsenal do Alfeite. No contexto da "revolta da Sé", esteve preso na cadeia do Limoeiro e foi desterrado para o Brasil.
Mais tarde, estudou Teologia na Alemanha por sugestão do cardeal Cerejeira e no final da década de 60, já num ambiente mais "respirável" proporcionado pelo Concílio Vaticano II, regressou a Lisboa, onde foi responsável pela comunidade paroquial de Loures; e na década de 70, já com Marcelo Caetano no poder, renunciou ao sacerdócio e contraiu matrimónio, sempre empenhado na defesa da causa pública.
Como curiosidade, registe-se que João Perestrello de Vasconcelos descendia de famílias ricas e que o pai de Oliveira Salazar tinha sido "feitor numa grande propriedade de um senhor Perestrello, situada em Santa Comba Dão".

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS