Quando chegámos à Guiné, em março de 1970, uma das nossas primeiras curiosidades foi a de saber se havia no território animais selvagens, como leões, chimpanzés, leopardos, antílopes, hipopótamos, crocodilos e outras espécies. Um idoso indígena, sábio “chefe de tabanca”, foi peremptório: “Eu nunca vi, mas pode ser que haja. Eu andei muitos anos no mato”.
Estávamos em África, numa Guiné densamente povoada de floresta (savana e estepe), com rios e suas ramificações, bolanhas e terrenos alagadiços. Habitais e climas eventualmente propícios a tais espécies.
Na Guiné permanecemos cerca de dois anos, em missão militar e traiçoeiro ambiente de guerra. Percorremos vastas áreas, selva adentro, muitas vezes em condições extremas, e o máximo que vimos foram répteis, macacos e pouco mais. Nem vestígios de tais animais vimos.

Passaram 46 anos e eis que, de repente, somos despertados para uma notícia intitulada “Leões da Guiné-Bissau em maior número”. Não pode ser!? É a nossa primeira reacção. A notícia fala de elefantes, leões, crocodilos, hipopótamos, búfalos, chimpanzés, onças, tigres, hienas, gazelas, répteis, babuínos…! Na Guiné-Bissau!?
Porquê havia de mentir o velho-sábio “chefe de tabanca”? Porquê durante dois anos, a viver no “mato” e a percorrer centenas e centenas de quilómetros na densa selva, nunca vimos um leão, hipopótamo e outros animais selvagens citados na notícia?
Crocodilos, leões, hipopótamos... o "chefe de tabanca" mentiu?
Será marketing turístico? Parques naturais de vida selvagem? Promover a Guiné como destino turístico para ver leões e outras espécies, no seu habitat… não será vender gato por lebre? Viver no mundo do fantástico!
NB: "Chefe de tabanca" é o ancião reconhecido como o que mais sabe sobre a vida da comunidade. Homem experiente e sábio.
Video > https://www.youtube.com/watch?v=dKbt-VCibZs
De André Santos a 30 de Setembro de 2016 às 12:10
Também estive na Guiné, entre 1965 - 1967 e nunca vi animais selvagens, excepto macacos. Nem nunca ouvi falar que houvesse. Há muitas áfricas talvez dai a confusão.
De Maximino Costa a 15 de Agosto de 2018 às 12:04
Estive na Guiné entre 1963 e 1966 na vida militar. Os animais selvagens que tive a oportunidade de ver foram; crocodilos (Mansoa), várias espécies de répteis (lagartos, cobras algumas bem venenosas), insectos em quantidades incontáveis), várias espécies de macacos (chimpanzés, macacos dos bijagós, macacos chão fula parecidos com babuínos), mas realmente leões, elefantes, hipopótamos, não vi. Numa caçada nocturna tive a oportunidade de ver uma onça e por vezes uma ou outra hiena.
Caro Maximiano, o v/testemunho é o nosso e certamente de todos os que passaram pela Guiné. A n/observação foi feita mais como um "tocar alerta" que em vez de promover o país que até tem potencialidades para um determinado modelo de turismo, com notícias oficiais deturpadas têm um retorno negativo. Aliás, pelo que conhecemos, neste momento, a Guiné, com cerca de 60 % de analfabetos, está numa encruzilhada muito problemática. A guerra depois na guerra... o país continua em guerra. Promove o país como destino turístico é um desafio arriscado... mesmo sem animais selvagens. Abraço, J. Gouveia
De Cherno Baldé a 23 de Agosto de 2018 às 18:29
Caros amigos,
O Chefe de Tabanca, o Homem Grande nao mentiu, ele falou daquilo que sabia, do que tinha visto e/ou daquilo que outros o tinham contado, mas isto nao invalida em nada o facto de que os animais citados possam ter existido ou que ainda fazem parte da fauna Guineense. O facto de terem vivido por mais de 2 anos no territorio da Guiné durante a Guerra colonial nao significa que tenham conhecido todos os segredos da natureza.
Os citados animais (Leoes, Bufalos, Hipopotamos, Crocodilos, Chimpanzes, Hienas, Onças) existem sim, dependendo das epocas do ano, da regiao e da disponibilidade de agua e zonas de pasto e/ou de abrigo para a sua segurança e alimentaçao.
Com um abraço amigo,
Cherno Baldé
Caro Baldé, saudações pela v/intervenção sobre a fauna da Guiné-Bissau. De facto, em dois anos em Mansabá, K3, Farim e Cuntima, não dá para conhecer tudo quanto existe em território guineense.
Acontece que não só andamos de G3 em punho, mato adentro (por imposição), como tivemos oportunidade de conhecer a Voz da Guiné e o Pe. Macedo, meu conterrâneo.
Já que estávamos na Guiné procurámos conhecer as causas da guerra, a economia, a cultura, o ensino, o emprego, a família, entre outras realidades locais. E na verdade nunca ouvimos falar em tais animais. Mas, bem, o seu conhecimento como cidadão guineense merece-nos respeito.
Cordial abraço
João Godim
De Cherno Baldé a 27 de Agosto de 2018 às 16:13
Caro amigo J. Gouveia,Obrigado pela compreensao e abertura de espirito. Na verdade, a tua reaccao eh bem compreensivel. Eu ainda nao me considero um velho e muito menos um sabio, mas em 1970 teria mais ou menos 10 anos. Posso confirmar que todos os animais citados ja fizeram parte da fauna deste territorio, mas como os territorios nacionais nao sao estanques, os animais movimentam-se atraves de corredores de um pais para outro. O meu avo materno que participou na ultima guerra (repressao) de Canhabaque era um Cacador profissional e ele falava-nos da existencia de Leoes, de Bufalos e de diversas especies de grandes herbivoros que povoavam as nossas florestas do Norte e Leste da Guine, para nao falar de Hienas, de Oncas e de diferentes especies de macacos que podiamos observar in loco ou constatar sua presenca por sinais e peugadas nos trilhos.Todavia, deve-se acrescentar que eh cada vez mais raro e mais dificil de observar e mesmo para aqueles cujo desaparecimento ainda pode causar estupefaccao como o caso dos Babuinos que por todo lado podiamos cruzar em bandos enormes, sao cada vez mais raros. As razoes sao diversas, mas estao sobretudo ligadas as accoes nefastas do homem e das alteracoes do clima e da demografia.Nas zonas mais recuadas da regiao de Boe, ainda se podem observar uma certa especie de Chimpanzes que ai habitam ha muito tempo, circulando entre os parques naturais do Senegal e da Guiné-Conacri. Os Hipopotamos existem em toda a faixa do Litoral, em especial nos Bijagos. Com um abraço amigo,Cherno Baldé
De J.Gouveia a 28 de Agosto de 2018 às 11:41
Caro Baldé, só temos a registar a v/informação, útil para todos os visitantes deste blog e não só.
Toda a informação, quando alicerçada em factos verídicos, é um saber que se valoriza, independentemente do tema. O conhecimento enriquece-se com o saber que dá forma à sábia cultura.
Em dois anos não deu, como é óbvio, para conhecer a Guiné na sua plenitude, mas sempre ficámos a conhecer o que dantes não conhecíamos. A Guiné faz parte importante da nossa juventude, porque também na guerra nem tudo é tragédia.
Felicidades para si e para a sua Guiné, que haja prosperidade, hoje e sempre.
João Godim
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