Está a causar alguma perplexidade o facto do Papa Francisco recusar o gesto simbólico dos fiéis beijarem o anel do Sumo Pontífice, numa recente visita ao santuário do Loreto, norte de Itália. Nessa atitude que em alguns fiéis mais rigoristas causou algum escândalo, o Papa voltou a mostrar que não é mais importante que ninguém e que a sua autoridade não se impõe pela subserviência.
Francisco não desrespeita a tradição que, no passado, mantinha uma certa distância nas audiências entre o Papa e os fiéis, e as pessoas em geral, mas o seu estilo é outro, mais simples, mais próximo, sem que isso signifique a ausência de solenidade.
O poder papal não está num anel ou nas vestes que exibe, mas no encontro próximo, fraterno, acolhendo todos sem distinção.
Aliás, desde que tomou posse, Francisco nunca deixou de surpreender; a sua simplicidade fez-se logo sentir no dia da sua eleição, a 13 de Março de 2013:
- Eleito Papa, não se sentou no trono para receber os cumprimentos dos cardeais participantes no conclave, preferindo ficar de pé;
- na sua primeira aparição pública, na varanda da Basílica de São Pedro,saudou os fiéis com uma veste simples, toda branca, sem o tradicional "manto vermelho com detalhes em ouro";
- saudou os presentes na Praça de São Pedro com um simples “boa noite” e ao se despedir desejou a todos um bom descanso; e pediu ao povo para rezar por ele;
- no final da sua primeira aparição pública regressou à Casa Santa Marta de autocarro; e ficou hospedado no mesmo quarto onde residiu até então, dispensando o sumptuoso Palácio Apostólico, o carro oficial, comitiva e seguranças;
- na sua primeira manhã como Papa, após ir rezar na Basílica de Santa Maria Maior, passou pelo hotel onde estava hospedado antes de iniciar o Conclave, e pagou a conta da sua estadia;
- dispensou os tradicionais sapatos vermelhos dos Papas; continuou a usar uma cruz simples e escolheu um anel de prata;
- (...) e mais e mais que a memória mais atenta poderá testemunhar ao longo destes últimos anos como Papa. Francisco é assim, quer ser um entre todos, ao serviço dos mais pobres, sem as grandezas materiais de outrora, porque é autêntico no seu modo de ser, nos seus objectivos e intenções.
Ao contrário do que se possa julgar, o gesto do Papa rejeitar o beijo ao anel, mais do que uma recusa da pessoa significa a oportunidade do cumprimentar, do toque de mãos, da proximidade fraterna, da caridade humana que, nas suas próprias palavras, "vai do coração para as mãos".
Já agora, uma sugestão de leitura para quem eventualmente se sinta escandalizado com estas atitudes de Francisco: "Um Futuro de Fé", título do livro que recolhe conversas entre o Papa e o sociólogo francês Dominique Wolton (publicado há poucos meses pela editora Planeta), sobre temas tão diversos e pertinentes, por exemplo: "O que pensa o líder da Igreja Católica sobre a Família, as minorias, os refugiados, a desigualdade social, o capitalismo, a reforma da cúria,... e outros temas incontornáveis nos tempos que correm e nos que aí vêm".

João Godim
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