
O que se destinava a ser um simples estudo sobre a cozinha e a gastronomia da Inglaterra ou Reino Unido, da autoria do célebre escritor George Orwell (1903-1950), tornou-se num caso sério a ponto de merecer um pedido de desculpas da parte de quem encomendou o estudo - o British Council, pelo texto não ter sido publicado na altura devida, em 1946.
Agora, mais de 70 anos depois, aquela instituição não só pede desculpa pelo sucedido e publica também o ensaio completo. O motivo para a publicação ter sido cancelada, dizem os responsáveis, foi por medo de ser mal recebida em plena austeridade do pós-guerra, ou seja, num momento em que a Europa continental vivia um racionamento alimentar, na sequência da II Guerra Mundial.
A revelação foi feita após a recente descoberta de uma carta nos arquivos do British Council - instituição pública responsável por promover a língua e a cultura inglesas a nível internacional, que demonstra que o ensaio, escrito pelo autor de clássicos da literatura como “1984” e “Triunfo dos Porcos”, acabou por ser rejeitado.
No ensaio, George Orwell escreve sobre a gastronomia britânica com o seu estilo característico, descrevendo-a como “simples, algo pesada, talvez ligeiramente bárbara”, considerando que a sua grande virtude advém da “excelência da matéria-prima local, e do seu foco principal no açúcar e nas gorduras animais”.
Descreve ainda a dieta britânica como sendo a de um “país nórdico e chuvoso”, onde “a manteiga é abundante e os óleos vegetais escassos”, onde “todas as especiarias e algumas das ervas mais fortes são produtos exóticos” para um povo que “prefere coisas doces a coisas condimentadas e que combina açúcar com carne de uma forma raramente vista noutros sítios”.
O escritor recorda ainda as “formas especificamente britânicas de cozinhar batatas” e admite que, fora este tubérculo, os vegetais “raramente recebem o tratamento devido” de um povo que “não é um grande apreciador de saladas”.
Apesar das críticas, Orwell defende que ninguém pode “dar uma apreciação justa à cozinha britânica” sem ter provado pratos e iguarias típicas como queijo Stilton, crumpets (espécie de biscoitos), bolos de açafrão, pudins de carne e rins ou rosbife com pudim do Yorkshire, batatas assadas e molho de rábano silvestre.
Sendo um território onde “bebidas quentes são aceitáveis na maior parte do dia”, o autor critica também o café britânico, que é "quase sempre mau", mas elogia o chá: apesar de a "maioria das pessoas" beber frequentemente café, "não têm interesse" nele e "não sabem distinguir bom de mau café”. Já quanto ao chá, “toda a gente tem a sua marca favorita e a sua teoria de estimação de como é que deve ser preparado”.
Lembra que, para os britânicos, o pequeno-almoço “não é um snack, mas sim uma refeição séria”, constituída por três pratos, o escritor refere a presença da marmelada de laranja como algo que surge sempre de manhã, sendo que “outros tipos de geleia raramente são comidos ao pequeno-almoço, e a marmelada não surge com frequência noutras alturas do dia”.

João Godim
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