Poder excessivo revela insegurança
Há 60 anos, no dia 11 de Junho de 1959, a ditadura do "Estado Novo" ponha fim ao sufrágio directo do Presidente da República, com a revisão da Constituição de 1933, um ano após a candidatura de Humberto Delgado. Era mais um passo para o centralismo e controlo total da governação e da sociedade. As leis, até então aprovadas, já previam muita vigilância e toda a sorte de proibições a nível das mentalidades e dos direitos colectivos e individuais.
Faltava condicionar a escolha livre e directa dos principais governantes da Nação pelo povo. A experiência das eleições presidenciais de 1958, com a maioria da população ao lado do general Humberto Delgado, não era para repetir. O regime ficou abalado e solidificou mais a sua força ditatorial do "quero, posso e mando".
Sob a ameaça crescente, no rescaldo da II Grande Guerra, a governação "salazarista" só sabia responder com proibições e instalava cada vez mais o medo junto das massas, o ódio aos que pensavam diferente ou ousavam provocar o clima abafado e bafiento.
Havia nesse tempo, como em tantos outros momentos da História portuguesa caracterizados pelo despotismo, personalidades políticas e académicas que se destacaram pela insubmissão e desobediência - casos do escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963), do filósofo Francisco Vieira de Almeida (1888-1962) e outros, que foram imediatamente presos, apesar do seu prestígio e idade de respeito. Atitudes fascistas que ainda hoje perduram, por outros meios e com efeitos idênticos.
O poder excessivo, desmedido, só revela insegurança e incapacidade. Como dizia alguém, não importa querer mudar os outros e o mundo a seu belo prazer ou despoticamente, se primeiro cada um não se mudar a si próprio. A paz, a liberdade e paixão pelo bem comum são conceitos muito bonitos desde que sejam praticados, de contrário não valem nada e a tentação de proibir, controlar, asfixiar, torna-se permanente, como aconteceu há 60 anos.

João Godim
FREELANCER
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