Aquele chavão que pretende dizer que "comunista" é pobre e que "centro-direita" é rico, é politicamente uma fraude de interpretação. Há ricos e pobres em ambas as partes. Como há quem mude de partido e de ideologia consoante os "tempos" do oportunismo e do azimute do poder. Por instantes, um CD de José Afonso (Zeca Afonso) dá som à emblemática canção "Grândola, vila morena" e alguém diz "este veio do nada e lutou pela liberdade sem nunca ser reconhecido a não ser pelas canções". Um equívoco ou porque foi assim que a imagem do cantor foi deixada.
Zeca Afonso, nasceu em Aveiro e faleceu em Setúbal (1929-1987), o pai era juiz e a mãe professora (anos 20 do século 20). À luz desta realidade e atendendo à sociedade portuguesa na época, não custa aceitar que Zeca nasceu num "berço de oiro". Por seu pai ter sido colocado, como delegado de Procurador da República em Angola, Moçambique e Timor, Zeca viveu nestes países (antigas colónias), pertenceu à mocidade portuguesa e estudou na universidade de Coimbra, por onde obteve a licenciatura em ciências histórico-filosóficas, em 1963 (aos 34 anos). O ser mais conhecido como cantor (notável) e assumido defensor das causas comunistas não lhe tira a herança das suas nobres e ricas origens.
Zeca Afonso é figura incontornável da música e da cantiga de intervenção portuguesas. Ouvi-lo é historiar sons e falares da revolução de Abril.

João Godim
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