
Fado é fado, em liberdade e sem palcos obrigatórios. A censura ao fado, durante o Estado Novo, era vista como uma anormalidade, como se a letra ou a poesia pudessem constituir-se em oposição ao poder. E a prova é que a revolução de 25 de Abril de 1974, que leva ao derrube do regime, faz-se com canções de intervenção, a começar pela imortal "Grândola Vila Morena". Haja fado, em liberdade, porque em nada ofende.
Fomos ao Museu do Fado, em Alfama (Lisboa) e logo à chegada apercebemo-nos que o Fado não é de museu, não é de nenhum lugar específio, tal como a canção, música, bailado, e tantas outras manifestações genuínas que brotam de forma espontânea. O fado começou por ser uma canção dos vencidos até que veio a passar para canção dos vencedores.

Não há uma data certa para o aparecimento do fado, cita-se finais do século XIX, da sua origem também não há certezas, a única referência substantiva é que começou a ser cantado pelas ruas, becos e vielas de Alfama, cantadeiras de classes sociais baixas, copos, noitadas e guitarradas, boémia à solta, uma vida criticada pelas classes nobres de Lisboa.
O Museu do Fado promove mas não consegue expressar a canção no seu todo. Mesmo quando se puxa os galões de Património Imaterial da Humanidade, galardão atribuído pela UNESCO, em 2011. A primeira guitarra portuguesa data de 1890. O primeiro filme português sobre o fado foi “A Severa”, com Amália Rodrigues e Virgílio Teixeira. Por via do fado, Amália Rodrigues, a maior fadista de todos os tempos, foi a primeira mulher a ganhar honras no Panteão Nacional.

O fado é português (…), nasceu na pobreza e hoje vive emancipado, tem fama internacional tal como o Flamengo espanhol e o Tango argentino. Fado é Fado, palavra a palavra, a que se juntam os acordes da guitarra, da viola e do piano, bem como com outros instrumentos. Ver fado pelo espaço de um museu é muito redutor. O fado não é canção de museu!

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS