Primeira viagem de circum-navegação
candidata a património da humanidade
Se há 500 anos era compreensível espantar-se com o mundo que aos poucos ia sendo descoberto, em especial pelos navegadores portugueses e espanhóis, num ambiente inovador a todos os títulos notável e indesmentível pelos povos da altura, cinco séculos depois é de lamentar a disputa travada entre os principais países de tamanha empreitada que foi "dar novos mundos ao mundo".
Como se o acontecimento em causa fosse de somenos importância ou, então, servisse de instrumento para se esgrimirem argumentos partidários e provincianos como o que acontece actualmente com a contenda entre alguns e à volta dos 500 anos da viagem de circum-navegação, pelo português Fernão de Magalhães.

Acontece que a Real Academia de História (RAH), em recente relatório (do início deste mês de Março) veio a público denunciar a "indevida" apropriação das comemorações da viagem de Magalhães por parte exclusiva de Portugal. Recorde-se que os chefes da diplomacia de Portugal e de Espanha anunciaram em Madrid, no passado mês de Janeiro, a apresentação conjunta de uma candidatura a património da humanidade da primeira viagem de circum-navegação do globo.
“Decidimos que Portugal e Espanha, através dos seus embaixadores na UNESCO, irão apresentar conjuntamente a candidatura” da rota da viagem iniciada pelo português Fernão de Magalhães e terminada pelo espanhol Sebastião Elcano, disse na altura o Ministro português dos Negócios Estrangeiro, Augusto Santos Silva.
Porém, logo a instituição espanhola RAH veio dizer que o documento em questão foi elaborado pela “necessidade social de responder às muitas questões levantadas pelas autoridades portuguesas ao tentar capitalizar a paternidade” da autoria da viagem pelo facto de “Magalhães ser natural de Portugal”.

O propósito é que “com este relatório pretende-se evitar que a comemoração [dos 500 anos da viagem] se converta numa fonte de divisão entre os dois países vizinhos”, segundo a RAH e conforme anúncio divulgado pelo jornal espanhol ABC.
Antes desse anúncio, o mesmo jornal tinha avançado que, numa candidatura inicial da rota de Magalhães apresentada por Portugal à Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o Governo português teria apagado o império espanhol da História ao quase não fazer referência ao nome de Sebastião Elcano ou ao papel preponderante de Espanha na realização da viagem.
Vejam só, depois de 500 anos é que chegamos a esta "brilhante" conclusão: a viagem de circum-navegação da Terra foi um "projecto total e exclusivamente espanhol". Valha-nos Deus!
Entretanto, a actual Ministra portuguesa da Cultura já classificou esta polémica de “artificial”. Durante um almoço de empresários promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, Graça Fonseca afirmou tratar-se de uma “polémica artificial” levantada por um jornal espanhol, numa altura em que “ambos os países estão em campanha eleitoral”.
Recorde-se que Fernão de Magalhães (1480-1521), que planeou a viagem que acabou por ser financiada pelo reino de Espanha, não terminou a expedição, uma vez que morreu nas Filipinas, em 1521, aos 41 anos, tendo esta sido concluída pelo navegador espanhol Sebastião Elcano.

O importante a realçar em tudo isto é que Portugal e Espanha estão a organizar inúmeras iniciativas que terão lugar até 2021 para assinalar esta viagem histórica iniciada há 500 anos.
Para se dissiparem quaisquer dúvidas sobre o pioneirismo deste navegador português basta ler duas obras de especial referência historiográfica e literária: "A viagem de Fernão de Magalhães e os portugueses", do reconhecido historiador José Manuel Garcia; e "Fernão de Magalhães, o homem e o seu feito", do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942).

João Godim
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