O fado é uma das expressões mais significativas da língua portuguesa, devido aos autores das letras, compositores e, sobretudo, dos seus intérpretes. Neste último caso, a fadista Amália Rodrigues está no lugar cimeiro ou no patamar das principais celebridades. É uma referência neste campo para todas as gerações, apesar de já não se encontrar entre nós...
Se fosse viva, faria hoje (23 de julho) 96 anos. Amália viveu entre 1920 e 1999, tendo deixado marcas para todos os tempos. Filha de um músico da província que tentara a sua sorte em Lisboa, nasceu na freguesia lisboeta da Pena e, desde criança, revelou dotes artístico, apesar de exibir uma certa timidez.
Começou a cantar para os vizinhos, que lhe pediam, mas no meio de um ambiente pobre teve que aprender uma profissão, tendo então escolhido o ofício de bordadeira, ao mesmo tempo que vendia fruta no Cais da Rocha, entre outras múltiplas tarefas.
Participou em marchas populares de bairro, sempre com distinção, e estreou-se profissionalmente, em 1939, no Retiro da Severa, a casa de fados mais famosa da altura. A partir dai, nunca mais parou... e o seu nome começou a aparecer em todos os cartazes da fama, entre nós e no estrangeiro, nos mais famosos palcos do mundo.

Fez também cinema e teatro de revista. Cantou os grandes poetas da língua portuguesa (Camões, Bocage), além dos poetas contemporâneos que escreveram para ela, como David Mourão-Ferreira; e ousou interpretar versos de cariz político; por exemplo, o seu fado de Peniche foi proibido por ser considerado um hino aos que se encontravam presos em Peniche; Amália escolheu também um poema de Pedro Homem de Mello, "Povo que Lavas no Rio", que ganhou igualmente uma dimensão política.
Com a chegada da democracia, em 1974, foram-lhe prestadas grandes homenagens. Foi agraciada com o Grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República, Mário Soares.
Em 1989, em França, depois da Ordem das Artes e das Letras, recebeu das mãos do presidente Mitterrand a Légion d'Honneur, entre muitas outras distinções que lhe foram também outorgadas pela imensa popularidade que gozava entre os inúmeros fãs.
Em 1997, a Valentim de Carvalho editou o seu último álbum com gravações inéditas, realizadas entre 1965 e 1975. Amália publicou ainda em vida um livro de poemas. A "diva do fado", como ficou conhecida, despediu-se de todos nós a 6 de Outubro de 1999, pouco depois de regressar da sua casa de férias no Alentejo.

No seu funeral, centenas de milhares de lisboetas desceram à rua para lhe prestar uma última homenagem. Sepultada no Cemitério dos Prazeres, o seu corpo foi, posteriormente, trasladado para o Panteão Nacional, em Lisboa, onde repousam as personalidades consideradas expoentes máximos da nossa nacionalidade.
Como sublinham os especialistas na matéria: "Amália Rodrigues representou Portugal em todo o mundo, divulgou a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o fado."


João Godim
FREELANCER
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