O "espelho", objeto banal do nosso contentamento e indispensável na montra das nossas aparências, "fascínio" a que ninguém resiste, tem muito de histórias, lendas e contradições. Ao princípio era a frase, tirada do conto "Branca de Neve", dos irmãos Grimm:
“Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu?”; depois tornou-se num símbolo de "luxo" da burguesia, da aristocracia..., e de "pecado", como ofensa à verdadeira beleza e imagem de Deus; até se resumir num olhar de "ilusões", "orgulhos" e "vaidades", que mostram superficialmente "o que somos" e o desejo que "queremos ser", conforme as situações de cada momento.
Como dizia alguém, o espelho "é um refúgio, um abrigo", que tanto poder elevar a nossa auto-estima, como rebaixar os nossos sentimentos, tudo depende da maneira como é usado.
Por um lado, vemos no espelho o que queremos que os outros vejam de nós; e, por outro, estabelecemos com o espelho um conjunto de cumplicidades, um depósito invulgar de emoções a que se pode recorrer de vez em quando, qual Narciso a contemplar eternamente a sua imagem...
O mesmo talvez se possa dizer, hoje em dia, do que acontece com as fotos e os vídeos..., sempre imagens especulativas que gostamos de ver, observar, elogiar.
Sempre assim foi, o que, em termos mais profundos, pode traduzir uma procura, uma busca pelo verdadeiro "ser", pela consciência de si mesmo; mas porque não vivemos o tempo suficiente, queremos antecipar essa identidade única que diz respeito a cada um e fixar tudo numa auto-representação, auto-retrato ou autobiografia.
Entre o "eu" e o espelho, estabelecem-se "reflexos" e "semelhanças" de encantar, que tanto podem resultar em bem ou em mal, depende dos "modelos" ou "estruturas" mentais com que acolhemos a imagem refletida, das alegrias, dos receios ou desafios como encaramos o que vimos.
A este respeito, há um conto coreano do século XVIII que relata o seguinte: um pobre camponês, para satisfazer o "único sonho" da mulher, que era ter um "espelho de bronze", fez tudo o que podia e não podia para o conseguir comprar, sem prever que esse objeto seria causa de muita discórdia...
Mal chega a casa, a mulher não se reconhece na figura que via no espelho e começa a insinuar que o marido tinha uma amante... O marido pega no espelho e vê ali um homem que também não conhece, mas entende que seja o amante da mulher.
Resultado, só discussões, brigas, gritos, insultos...; até que os dois foram pedir ajuda à máxima autoridade lá da terra que, frente ao espelho, também confundiu a sua própria imagem com a de um funcionário vestido de uniforme à maneira... Seria o seu sucessor no cargo... será que tinha sido destituído e não sabia?!
Conclusão, do simples e inocente "espelho" pode-se esperar tudo: nele podemos construir a imagem que queremos e desejamos, mas, nele também podemos assistir à nossa própria destruição.
Música > https://www.youtube.com/watch?v=9AQ3Fcb3sjk&feature=related

João Godim
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