Indignidade política, desleixo e confusão
Eça agora!, é o que nos sugere neste momento o aniversário natalício deste grande romancista português, nascido a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. O escritor e diplomata José Maria Eça de Queiroz, autor de "Os Maias", "A Ilustre Casa de Ramires", "A Cidade e as Serras", entre tantos outros títulos, é uma figura incontornável do nosso passado literário, com lições indispensáveis para o nosso tempo, ao nível do escrever bem, do estilo narrativo e do vocabulário realista.

Eça agora!, esta expressão incentiva-nos ainda à cuidada observação dos acontecimentos, com uma crítica oportuna e denunciadora de malabarismos, quer ao nível social, político e mesmo no campo das artes. Basta reler, neste caso, as famosas "Farpas", escritas pelo autor do "Crime do Padre Amaro" e Ramalho Ortigão, no ano de 1871, na sequência das Conferências do Casino; crónicas mensais publicadas em fascículos, com uma admirável caricatura da sociedade de então, fina ironia, espírito satírico e tom humorístico.
Nada escapava à pontaria das "Farpas", desde o ambiente partidário, governamental, passando pelos setores da cultura e da economia, até à religião. Podemos dizer que as "Farpas" protagonizaram um novo conceito de jornalismo, de ideias, e de crítica social. Era esse o caminho que se pretendia fazer para um mais rápido desenvolvimento mental do país.

Eça agora!, quanta atualidade podemos reivindicar a partir daqui!
"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte" (Eça de Queirós, in Farpas (1872). Sem mais comentários.
Eça morreu em Agosto de 1900, na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, aos 55 anos... A sua obra literária e o seu trabalho como diplomata em vários países falam por si e colocam-no entre os melhores prosadores de todos os tempos.
Eça agora!

João Godim
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