Desde as mais remotas ideologias registadas pelo progresso humano e destinadas a vencer todos os obstáculos, há sempre mais e mais por conquistar, conhecer, submeter, destruir e até aprender até ao infinito.
Conflitos, guerras, violência gratuita, já se tornaram comuns no quotidiano dos países e povos, em toda a parte e directa ou indirectamente todos são atingidos pela rapidez e globalização com que os acontecimentos e notícias circulam; basta lembrar os recentes atentados bombistas no SriLanka com centenas de mortos e feridos...
É o preço a pagar por tanto desenvolvimento material e poder da humanidade? Ou estaremos prisioneiros de nós próprios, encurralados num planeta, numa terra limitada, sem outras alternativas ou recursos adequados à inevitabilidade dos nossos passos...
Por muito que andemos, de um lado para outro, à procura de mais e melhor, no final percebemos que estamos numa prisão a lutar pela sobrevivência... O tema tem sido objecto de muita reflexão, desse há muito, com os mitos antigos e os ensaios modernos, como faz notar o britânico John Berger no seu livro "Entretanto".
Escritor, poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, guionista e crítico de arte, John Berger começou por ser pintor, mas acabou por escolher a escrita durante a situação política em que vivia na altura, em plena Guerra Fria.
Falecido em 2017, em Paris, aos 90 anos de idade, deixou uma vasta obra publicada, de várias dezenas de romances, ensaios, artigos na imprensa, poesias, guiões de cinema, peças de teatro e algumas pinturas. Mas a obra de Berger não se esgota na pintura e na crítica de arte, sendo vastos os textos que escreveu sobre os mais variados temas, como é o caso de "Entretanto" ("Meanwhile", 2008), um breve ensaio, poético, sobre o mundo contemporâneo e uma denúncia da forma como o poder transforma o planeta numa prisão.
Segundo a editora Antígona, este era "um dos ensaios favoritos do autor", cuja versão portuguesa é traduzida por Júlio Henriques. "Ando em busca de palavras que descrevam o período da história que estamos a atravessar", escreveu o Berger, e a resposta foi encontrada com este brevíssimo ensaio de "extraordinária beleza e lucidez", acrescenta o tradutor.
O livro é um comentário "cristalino" ao período de tempo que a humanidade atravessa. "Entretanto" compara a distopia neoliberal contemporânea a uma prisão: "um espaço finito e circunscrito, de vigilância consentida e permanente dos nossos passos, de modelação opressiva dos nossos pensamentos".
"Nesta prisão invisível de alienação e consumo, parece que a única liberdade que nos concedem é a de nos afogarmos em cada vez mais fluxos de dinheiro e informação, de onde é impossível emergir.
Entretanto, como resistir?", é o dilema lançado pelo autor perante "uma humanidade encarcerada entre o subúrbio e o local de trabalho, entre o gueto e o centro comercial". Compete a cada um saber discernir e optar pela verdadeira liberdade.

João Godim
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