Neste dia 10 de Junho, data simbólica para a Nação portuguesa, recordam-se, por analogia cultural, dez personalidades que marcaram o nosso passado colectivo, ainda que prevenidos pelo poeta de que «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», ou seja, cada um tem a sua opinião que merece ser respeitada e neste caso é isso que tentamos expor, sem menosprezo por outros (as) merecedores(as) também de uma lembrança oportuna:

- Luís Vaz de Camões (1524-1580), um génio literário que seria grande em qualquer parte do mundo. Épico por excelência, como prova a sua obra-prima, "Os Lusíadas". No dizer de Ramalho Ortigão, Camões «não é unicamente o poeta da nacionalidade portuguesa, mas também a cristalização artística do grande espírito universal do seu tempo».

- Fernão Mendes Pinto (1510-1583), viajante, aventureiro, passou grande parte da sua vida na Índia e no Japão; foi traficante e escravo; numa das suas viagens ao Oriente conheceu São Francisco Xavier e, influenciado pela sua personalidade, decidiu entrar na Companhia de Jesus (saindo mais tarde); regressado a Portugal, deu a conhecer os seus feitos e as realidades observadas directamente através desse grande relato que se intitula "Peregrinação".

- Pedro Hispano ou Pedro Julião (1215-1277), médico, cientista e Papa (João XXI. Grande erudito, estudou Filosofia, Medicina, Teologia e Matemática em Paris. Escreveu obras de referência, como "O Tesouro dos Pobres", sobre receitas e mezinhas para combater as doenças; e ainda o livro "Summulae Logicales" (Súmulas de Lógicas), considerada uma importante sistematização da lógica clássica.
- Damião de Góis (1502-1574), relevante historiador e humanista. Representante do Renascimento em Portugal, estanciou em vários países da Europa, conheceu Lutero, Erasmo de Roterdão e Alberto Durer (que lhe pintou o retrato); foi guarda-mor da Torre do Tombo e escreveu as crónicas de D. Manuel I e do Príncipe D. João (futuro rei D. João II). Foi condenado pela Inquisição a prisão perpétua, no Mosteiro da Batalha. Para se conhecer melhor a personalidade de Damião de Góis e o seu tempo, sugere-se a leitura do livro (ímpar) do escritor Fernando Campo "A Sala das Perguntas".

- Padre António Vieira (1608-1697), o «Imperador da Língua Portuguesa», segundo Fernando Pessoa. Jesuíta, missionário no Brasil, foi defensor acérrimo da liberdade dos "índios", pioneiro dos direitos humanos e grande orador. Diplomata ao serviço do rei D. João IV, foi perseguido pela Inquisição e escreveu uma obra sem precedentes, cuja edição crítica dos seus "Sermões" e outros escritos valiosos (em 30 volumes) foi publicada entre nós há poucos meses (pelo Círculo de Leitores). Para o padre António Vieira (que marcou a ligação marítima entre a Europa e o Brasil através de inúmeras viagens): «Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos».

- Luís António Verney (1713-1792). Foi um dos reformadores da mentalidade portuguesa no século XVIII. Educado em Itália, escreveu um livro que lhe conferiu um lugar de destaque entre os nosso antepassados: "O Verdadeiro Método de Estudar". No entanto, os assuntos abordados nesta obra, como a instrução e a educação das mulheres, causaram escândalo, o que lhe valeu o ódio das classes dominantes.

- Francisco da Holanda (1517-1584), pintor, escritor e teórico das Artes. Esteve em Itália, onde travou amizade com Miguel Ângelo que revela nos "Diálogos de Roma". Uma das suas obras mais importantes intitula-se "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa", considerada o primeiro estudo sobre urbanismo redigido na Península Ibérica.

- Marquesa de Alorna (1750-1839), escritora e tradutora. O seu nome completo era Leonor de Almeida de Portugal Lorena e Lencastre, e pertencia à família dos Távoras. Educada em regime de quase clausura no Convento de Chelas; foi obrigada a viver no exílio devido às suas ideias liberais; e é considerada a iniciadora do romantismo literário português, a «Madame de Stael portuguesa». Escreveu com o pseudónimo arcádio de "Alcipe" e influenciou outros poetas e escritores, nomeadamente Bocage e Alexandre Herculano.

- Garcia de Orta (1500-1568), médico e cientista, autor de celebradas obras como "Colóquios dos Simples e Drogas da Índia", em que foi pioneiro no tratamento e explicações sobre botânica, farmacologia, medicina tropical e antropologia, revolucionado os conhecimentos do "Velho Continente". Sobre a sua vida e obra sugere-se o livro "Os Desafios de Garcia de Orta, Colóquios dos Simples e Drogas da Índia", de Teresa Nobre de Carvalho (acaba de ser publicado pela Esfera do Caos Editora).

- António Nobre (1867-1900), "um dos maiores poetas portugueses e talvez aquele que mais e melhor exprimiu a singularidade portuguesa: a resignação ao destino num fundo de suave tristeza; a perpétua sublimação de um passado precioso em tudo: grandes glórias históricas e bagatelas domésticas, Índias perdidas e flores murchas; o amor do risco, magníficos desprendimentos e ao mesmo tempo um ideal de vida caseiro, feito de egoísmos almofadados e de ambições pueris", assim escreveu o consagrado autor de "Mau Tempo no Canal", Vitorino Nemésio, sobre o poeta do "Só" que viveu em Paris, mas jamais esqueceu a pátria sufocada e triste, a quem dedicou versos minados pela tuberculose de que padecia.

João Godim
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