Temos um líder mundial português, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres. Pelo seu perfil de qualidades humanas à altura da sua missão bem merece ser ajudado nas tarefas colossais para ir consertando este mundo e conseguir um concerto mais afinado e harmonioso, considera o sénior Aires Gameiro, de 87 anos de idade, doutorado em psicologia, membro da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, antigo professor universitário e autor de vasta bibliografia.
Como reflexão, reproduzimos um pequeno texto deste autor sobre alguns problemas que o novo Secretário-Geral das Nações Unidas é chamado a resolver ou a reduzir:
> O chamado Ocidente tem mantido um paradigma de polarização para as relações político religiosas. Há dois mil anos as políticas, tensões, conflitos e guerras polarizam-se no cristianismo. Alguns exemplos.
O império romano considerava o cristianismo, alternativa indesejável para as suas posições político religiosas. Tudo resultou em muitos milhares de mártires.
Com Constantino ensaia-se novo paradigma, favorável ao cristianismo, mas bastante equívoco. Cristianismo, sim, desde que seja submisso e se adapte aos poderes imperiais. Império e Igreja polarizam-se e imitam-se para ter vantagens, um mais que o outro.
As invasões dos bárbaros obrigam a ceder mais e faz emergir um novo paradigma: decaem os poderes imperiais, Igreja sofre pressões “bárbaras”, e ocupa mais espaço e torna-se árbitro da política europeia. Este paradigma do poder religioso predomina na Idade Média, face aos poderes fragmentados e submissos do feudalismo.
A Reforma religiosa e política e a Contra Reforma católica iniciam nova polarização com inquisições dos dois lados. As políticas da Revolução Francesa e suas cópias são agora novo polo imperial de “religião” laicísta, extremista, frente à Igreja católica e as suas instituições.
Esta polarização prolongou-se pelos séculos XX-XXI, e foi copiada pelas ideologias políticas ateias do comunismo, do nazismo e do último figurino, o Isis terrorista. agora?

A polarização é confusa, misturada, cruzada de secularismos extremista, e de “guerreiros” ideológicos falso religiosos de polo oposto com armas pelo meio. O desafio é crucial; faltam linhas claras entre guerras políticas, terrorismos e religiões.
Os desafios vão continuar até se conseguir um novo paradigma de relações politico religiosas que ultrapasse vários paradoxos: respeitar as diferenças religiosas e conseguir consensos sem cair no multiculturismo de extremismos de terrorismos “religiosos” e políticos.
Vai ser difícil para políticos e para “religiosos”. Mas importa dar passos em consensos e critérios sobre o bem e o mal, o que é melhor e pior para todos, o bem comum. Que educação, liberdades e diferenças dos cidadãos defender?

Insistir na defesa do multiculturalismo, das diferenças culturais, sem conseguir consensos religiosos e políticos virão os extremismos fracturantes e violentos. É preciso defender a liberdade religiosa e política, mas como evitar os individualismos extremistas?
Os diálogos sucessivos precisam de algum consenso e acordo limitativos de algumas liberdades abertas à violência, às guerras e terrorismos. Estes consensos precisam de “algo” que una a colaboração nas questões e problemas ameaçadores.
Parece que os chefes religiosos e políticos irão dar passos neste sentido: aceitando objectivos comuns de colaboração e paz. Será mais fácil líderes morais de consensos. Não é fácil.

Os milhões de mortos nos países comunistas e no nazismo não tiveram líderes à altura; nem nas descolonizações injustas e violentas em que se justificaram tantas brutalidades injustificáveis. E agora?
Talvez ainda sejam as religiões que pelo número dos seus membros, moderação, sabedoria e alguns líderes que podem dar passos de diálogo e consensos, por exemplo do que se entende quando se diz Deus, como o Papa Francisco repete. O desafio na política é maior.
Faltam líderes e um governo global, democrático, legítimo, com vontade e meios para fazerem parar os diversos tipos de terrorismo, físico e ideológico, que ferem a dignidade das pessoas. E que evitem usar “soluções” que são problemas. Na ONU faltam líderes. Fazemos votos que António Guterres na sua nova missão faça a diferença que falta.
A missão dos líderes coaduna-se mal com a aceitação do multiculturalismo absoluto. É desejável resolver os problemas respeitando as diferenças sem esmagar os extremistas, mas também sem dar mão livre a terrorismos de violência religiosa e de genocídios.

E os homens querem ou são capazes?
Embora o Ocidente esteja confuso e um pouco desnorteado, não lhe resta outra alternativa que tentar encontrar um novo paradigma para estas misturas explosivas que afectam a política e as religiões.
Ainda bem que são milhões os que evitam que tudo piore ainda mais e que muito bem se vá semeando e crescendo por todo o mundo.
Outubro de 2016
Aires Gameiro

João Godim
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