Justiça implacável, justiça tolerante
Finais dos anos 50, princípios dos anos 60, do século passado, não havia semana que os jornais não publicassem a cara de ladrões nos calabouços da polícia. Cara chapada de frente. Era como uma primeira sentença pública marcada para toda a vida. Nunca soube o destino à posterior desses ladrões. As mulheres também eram bafejadas mas com o cabelo rapado. Era o poder absoluto a funcionar, sem contemplações, em prisões assustadoras, doentias, sem luz e em cimento frio. Chegámos a visitar uma dessas prisões portuguesas do quinto mundo.
Estávamos sob leis agressivas, juízes implacáveis, polícias intoleráveis, uma PIDE demolidora e um sem número de informadores (bufos) a denunciar o por vezes inexistente. O respeito pela polícia e pela justiça traduzia-se em medo, para não dizer terror. O que hoje se vê é uma deslavada autoridade que chega a ser vítima dos criminosos. Aqui outrossim a diferença acentuada entre o poder judicial da ditadura e da democracia.
Polícias agredidos são mais que muitos. Cadeias, não todas, com parque, ginásio, televisão e biblioteca, celas melhoradas, refeições com ementa alternativa, são “hotéis” quando comparadas com as prisões de há 50 e mais anos. A benesse é tanta qua há “criminosos” a pedir para serem presos no estabelecimento da sua preferência. Os políticos levam vantagem. Um dia teremos mais respostas sobre as tendências da justiça e do privilégio prisional. Uma coisa é certa, quanto melhor a acomodação mais presidiários há nas prisões, ao contrário do antigamente.

João Godim
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