Há lojas centenárias no nosso país que se tornaram verdadeiros símbolos de uma certa época, com muitas histórias por contar. Entre muitas, distinguem-se os "cafés", locais privilegiados das conversas públicas, dos convívios e das tertúlias, em que pontificavam os artistas, intelectuais, os opositores da ideologia vigente e os simples apreciadores da "bebida quente" pronta a servir a qualquer hora do dia...
Entre muitos, existem os "famosos", em particular nas grandes cidades, como Lisboa, ainda hoje com uma presença marcante. Por exemplo, o "Martinho da Arcada", no Terreiro do Paço, fundado em 1845, o mais antigo da cidade ainda em funcionamento, conhecido como "café dos escritores", com o poeta Fernando Pessoa (1888-1935) entre os principais frequentadores, e que continua a ter uma mesa reservada.
Outras importantes personalidades frequentaram este café lisboeta, como Lopes Mendonça (autor da letra do hino nacional A Portuguesa), os políticos e governantes Afonso Costa, Manuel da Arriaga, Bernardino Machado, os poetas e escritores Cesário Verde, António Botto, António Ferro, Almada Negreiros, José Saramago...
Antes de se estabelecer o Martinho de Arcada, e de acordo com os interesses dos vários proprietários, no mesmo local funcionaram: o "Café do Gelo", entre 1778 e 1782; a "Casa do Café Italiano", em 1795, mais conhecida por "Café do Comércio", o "Café dos Jacobinos", em 1809, pelo facto de ser frequentado pelos políticos da época.
Com a Revolução liberal de 1820, voltou a designar-se "Café do Gelo", pois continuava a deliciar os seus clientes com os saborosos gelados; em 1824, ganhou notoriedade como "Café da Arcada do Terreiro do Paço"; e, finalmente, no ano de nascimento de Eça de Queirós, em 1845, ficou para a História como o Café-restaurante Martinho da Arcada.
Outros também mereceram a fama histórica, ainda que não tenham existido por muito tempo..., como o primeiro Café Nicola (1794-1834), muito ligado ao poeta Bocage; A Brasileira do Chiado, desde 1905, refúgio para muitos artistas, como Almada Negreiros e Santa Rita Pintor, entre muitos outros de sucessivas gerações, e ainda academia de mentalidades críticas, formação de partidos, grupos e revoluções...
Eram simples conversas com café, onde tudo se discutia e estudava com muito interesse, com a participação dos mais "famosos" em muitas áreas e que merecem ser sempre lembrados.

João Godim
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