Um dos lados do debate global
Em tempo de guerra aspira-se à paz, mas é durante o tempo de tréguas que se prepara a guerra, costuma-se dizer. As armas podem ser materiais, morais ou feitas de entendimentos permanentes, com o diálogo e a convivência dos povos acima de todos os interesses particulares.
O humanismo, ligado aos direitos e deveres, às declarações e acordos oficiais, deve ser palavra de honra, numa relação mútua que torna todos dependentes uns dos outros. Esta convicção foi expressa, por exemplo, por Edward Said (1935-2003), o autor da obra "Orientalismo", e que se fosse vivo teria feito este mês (a 1 de Novembro) 80 anos. Nasceu na Palestina, concretamente em Jerusalém, mas cedo partiu com a família para o exílio (Egipto e Líbano), aquando o estabelecimento de Estado de Israel (1948).

Aos 17 anos, partiu para os Estados Unidos da América, onde se formou e doutorou em Literaturas, assumiu a "causa palestiniana" e começou a publicar vários títulos sobre questões do Islão, do discurso colonialista, entre outros, sem ressentimentos ou rancores do passado. O seu pensamento ampliou-se para além das fronteiras físicas, marcadas por interesses imperialistas ou ódios ancestrais.
Na sua obra mais divulgada em todo o mundo - "Orientalismo", defende por exemplo que "o fundamental é que a luta pela igualdade Palestina /Israel seja conduzida em direcção a um objectivo humanista, ou seja, à coexistência, e não mais supressões e recusas." Também tece críticas a intromissões externas:
"A reflexão, o debate, a argumentação racional, o princípio moral que se baseia numa noção secular segundo a qual os seres humanos devem criar a sua própria história, tudo isto foi substituído por ideias abstractas que celebram a excepcionalidade americana ou ocidental, denigrem a relevância do contexto, e olham para as outras culturas com um desprezo escarnecedor. (...) Este é um dos lados do debate global"...
Nesta hora, de tantos receios por parte dos governos e das populações na Europa face ao avanço do "terrorismo", talvez seja útil ouvir grandes personalidades como Edward Said que, em "Orientalismo", propôs "um novo modo de conceber as separações e os conflitos que estimularam gerações de hostilidade, guerra e controle imperial".

João Godim
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