Faz hoje anos (22 de Maio de 1871) que se inauguraram em Lisboa as célebres "Conferências Democráticas do Casino", uma iniciativa do grupo Cenáculo, formado por jovens escritores e intelectuais de vanguarda. O principal dinamizador foi Antero de Quental, imbuído dos novos ares dos autores franceses, com destaque para Proudhon; ao mesmo tempo que aquele ano (1871) acolhia a "Comuna de Paris".
A conferência de abertura, a cargo de Antero, tinha por tema: "O Espírito das Conferências", onde se apresentavam o programa e as intenções que visavam preparar as inteligências e as consciências para o progresso da sociedade e de acordo com a evolução das ciências. Para os promotores deste evento, que marcou uma geração, urgia tirar Portugal da vergonha que constituía ao ser comparado com a restante Europa, em matéria de cultura, de desenvolvimento em geral, sem preconceitos ou estigmas.

As outras conferências, que entretanto foram proibidas por defenderem "doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado", tinham como oradores, entre outros: Antero de Quental - "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares"; Augusto Soromenho, sobre "Literatura Portuguesa"; e Eça de Queirós, sobre "A Literatura Nova - o Realismo como nova expressão de Arte"; Devido aos protestos e proibições, foram canceladas as conferências: "O Socialismo", de Batalha Reis; "A República", por Antero de Quental; "A Instrução Primária", por Adolfo Coelho; e "A Dedução Positiva da Ideia Democrática", de Augusto Fuschini.
No seu conjunto, as "Conferências do Casino" foram uma afirmação do movimento de novas ideias que então grassava noutros países e que entre nós cativaram escritores e pensadores através, sobretudo, da leitura de livros importados de França.
Antero de Quental (1842-1891), no fecho das "Conferências Democráticas", no Casino Lisbonense, assumia o espírito interventivo, revolucionário e inquieto dos seus mentores e responsáveis, a ponto de defender que se: "O Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo; a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno".

João Godim
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