Como nascem os ditadores
Agora que a Venezuela continua na ordem do dia, por motivos bem conhecidos de todos os interessados em seguir as políticas económicas e políticas do mundo actual, é urgente ler um livro, há pouco editado em Portugal, da autoria de dois professores universitários de Harvad, intitulado "Como Morrem as Democracias".
É urgente perceber os porquês, as causas que estão ou estiveram no início dos acontecimentos, porque os resultados ou as consequências dramáticas no caso da Venezuela, por exemplo, estão à vista e motivam sérias preocupações da parte da diplomacia portuguesa e internacional, e da comunidade em geral.
Como foi possível chegar a esta situação? Quem ajudou à ascensão de demagogos/populistas ao poder, sem a experiência democrática de cargos, tornando-se a seguir ditadores?

Em relação à Venezuela, conforme a explicação dos especialistas dadas neste livro, tudo aconteceu devido a "alianças fatídicas" e de ambição desmedida, que "ajudam a explicar a ascensão de Hugo Chávez".
"A Venezuela orgulhava-se de ser a mais antiga democracia da América do Sul, existente desde 1958. Chávez, um oficial subalterno e líder de um golpe falhado que nunca detivera um cargo público, era um outsider político. Mas a sua ascensão ao poder recebeu um impulso crítico por parte de um consumado homem do aparelho: o ex-presidente Rafael Caldera, um dos fundadores da democracia venezuelana", inacreditável!

Então, há mais de trinta anos, dois partidos alternavam-se no poder: o Acção Democrática, de centro-esquerda, e o Partido Social Cristão, de centro-direita, de Caldera; e nos anos 70, a Venezuela era considerada uma "democracia-modelo"; a economia do país dependia (e depende) fortemente do petróleo; e na década de 80, devido a "recessões prolongadas", o "aumento da pobreza" e a "crise" a alastrar, generalizam-se os descontentamentos e os tumultos...
Mais tarde, em 1992, militares subalternos, liderados por Hugo Chávez, revoltam-se com o presidente Carlos Andrés Pérez, mas o golpe falhou... No entanto, ergue-se a figura do "herói popular" e prenuncia-se uma mudança nunca vista, através de eleições...
Neste cenário, ainda em 1992, "embora o ex-presidente Caldera fosse um veterano reconhecido", a sua "carreira política estava em declínio". Aos 76 anos de idade, ainda sonhava "voltar ao poder" e viu em Chávez "uma boia de salvação". Logo, os interesses para ambas as partes eram evidentes: para o "velho político" significava captar o "eleitorado anti-sistema"; e para o "revolucionário", obter a "credibilidade" política, sem mais provas...

E tudo decorreu às mil maravilhas, apesar de golpes e prisões pelo caminho, porque o principal estava garantido, ou seja, Caldera "abriu as portas" do poder a Chávez. "O sistema partidário desmoronou-se após a eleição de Caldera, em 1993, como independente anti-partidário, abrindo caminho a futuros intrusos. Cinco anos mais tarde, seria a vez de Chávez".
Nesta análise tão concreta, os autores de "Como Morrem as Democracias", não hesitam em comparar os demagogos de tão má memória: "Apesar das suas vastas diferenças, Hitler, Mussolini e Chávez seguiram até ao poder caminhos que partilham semelhanças surpreendentes.
Não só eram todos outsider com o dom de cativar a atenção do público, como cada um deles chegou ao poder porque os políticos do aparelho ignoraram os sinais de alerta e lhes entregaram o poder (Hitler e Mussolini) ou lhes abriram a porta (Chávez)".

Nesta obra, que se recomenda como leitura oportuna, também os seus autores explicam tudo sobre a democracia nos EUA e como foi possível o "fenómeno Trump"...

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS