"Um pouco mais de sol - eu era brasa, / Um pouco mais de azul - eu era além. / Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse àquem... ". O autor destes versos, do poema "Quási", é Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta desparecido a 26 de abril, faz, hoje, um século, através de suicídio, num hotel de Paris...
Poeta modernista, partilhou com o amigo Fernando Pessoa as mais diversas ousadias e novidades da época em que viveu, no meio de turbulências e inquietações, num mundo minado pela guerra, mas com muitos ideais.

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, no seio de família abastada. Ficou órfão de mãe (morreu quanto o poeta tinha dois anos de idade) e, devido à vida do pai, sempre em viagens, foi educado pelos avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Aos dez anos, estudante no Liceu do Carmo, começou a escrever poesia.
Entretanto, o pai levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu ´O Chinó´, "jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica". Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, em 1911, mas não chegou a concluir o ano, optando por estudar Direito na Sorbonne, em Paris.
Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e espetáculos, onde conviveu com Santa-Rita Pintor, entre outros emigrantes portugueses de renome, como António Ponce de Leão. Em 1914, publicou "A Confissão de Lúcio" (novela) e "Dispersão" (poesia).

No ano seguinte, "durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projetar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu". De regresso a Lisboa, vindo de Paris, Mário de Sá-Carneiro passou a conviver com "outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português".
Em Julho saiu o "Orpheu 2" e, pouco depois, Sá-Carneiro volta para a capital francesa de onde escreveu a Fernando Pessoa informando que seu o pai decidiu não subsidiar "o número 3 da revista". Agravaram-se, também nessa altura, as "crises sentimentais e financeiras" do poeta...

E a pior consequência traduziu-se em suicídio, a 26 de Abril de 1916, num hotel parisiense... Para além das obras referidas, foi autor da coletânea de contos Princípio (1912) e do volume póstumo "Indícios de Ouro2 (1937).

João Godim
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