Há cem anos, em Praga (na República Checa), publicava-se uma novela literária/filosófica que tem dado muito que falar - "A Metamorfose", do escritor de origem judia Franz Kafka(1883-1924) e que narra o estranho caso de um caixeiro-viajante, de nome Gregor, que uma manhã acorda transformado num inseto (uma barata). O tema tem tudo a ver com o nascimento da chamada "literatura moderna", em que o absurdo, a alienação, a obsessão e a culpa ganham o protagonismo das personagens e provocam sentimentos de profunda estranheza. Kafka, educado na língua alemã, não ficou imune às influências predominantes no seu tempo, que já vinham desde os finais do século XIX, com Dostoievski e Friedrich Nietzsche, por exemplo, atingindo o auge com os dramas da I Grande Guerra.

Foram os escritores e os filósofos, mais do que os políticos profissionais, que então questionaram o "porquê, o como e o para onde" da existência humana face às tragédias sociais e aos dilemas existenciais. Neste aspeto, recorda-se também a obra notável do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942) -"Um homem sem qualidades", que continua a ter flagrante atualidade, e que integra com Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce a lista dos grandes prosadores do século XX, pela resposta realista que deram nas suas obras às inquietações e provocações contemporâneas.
>"Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós", assim terá escrito Franz Kafka numa espécie de desespero e de impotência perante os acontecimentos trágicos da vida, mas, ao mesmo tempo, pretendendo dar um abanão ou sacudir as consciências adormecidas da Europa da altura, alertando e de certo modo antecipando situações que se sucederam mais tarde com o nazismo e o estalinismo...
Voltando à "Metamorfose", há lições de vida que ainda hoje se podem tirar desta "alegoria" proposta por Kafka:
> as aparências não são o mais importante; apesar de se ter transformado numa barata, e por isso repudiado pela família e pela sociedade, Gregor descobre que se mantêm intactos os seus valores e essência;
> apesar de não ficar satisfeito com a mudança insólita, Gregor aprende a aceitar a "metamorfose" e a lidar com as novas situações que dela provêm;

> a "metamorfose" foi uma oportunidade para Gregor despedir-se dum emprego que odiava, apesar de querer continuar a ser profissional responsável, e passar a procurar o que mais felicidade lhe trazia para, deste modo, fazer também alguém feliz, apesar de todos os dissabores, contratempos, incompreensões...
Bem, mas não é assim tão fácil mudar!, dirão. Será? Em vez da "metamorfose", quantas "máscaras", quantos esconderijos existem à volta da personalidade, de conveniências e outros interesses? Como alguém dizia: "à medida que avançamos na vida, tornamo-nos naquilo que não somos..."

João Godim
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