A Catedral do Funchal, sede de bispado há muitos séculos, desde a criação da diocese em 1514, distingue-se na sua arquitectura religiosa como um dos exemplares melhor conseguidos do "estilo manuelino" e do "gótico mendicante". A par das catedrais suas contemporâneas, caso de Silves e Lamego, a sua estrutura assenta numa "cruz latina, composta por três naves escalonadas, permitindo a iluminação directa de todas elas"; apresenta o tecto "mudéjar" (arte mourisca) , dos mais ricos em Portugal; e conserva na íntegra, e no mesmo local, o "retábulo-mor" oferecido pelo rei D. Manuel I há 500 anos, o que o torna também único no País. Pedras basálticas do Cabo Girão (Câmara de Lobos) e cedros da ilha foram os principais materiais usados na sua construção.
A igreja da Sé ou Catedral do Funchal destaca-se, por outro lado, pelo facto de ter sido a primeira igreja ou monumento religioso dos Descobrimentos portugueses fora do continente europeu, ficando com a responsabilidade espiritual sobre todas as outras que se foram construindo na Expansão Ultramarina, passando por África, América do Sul, até ao Oriente.
Uma breve cronologia dá-nos a conhecer a importância e o empenho dos governantes da altura em ordem à edificação da igreja mãe da Diocese do Funchal e que se tornou na "Primeira Diocese Global do Mundo", como se intitulou o recente congresso (realizado em Setembro de 2014) no Funchal, por ocasião dos 500 anos desta Diocese:
- em 1433, - carta de D. Duarte a D. Henrique doando a ilha da Madeira e sua jurisdição religiosa à Ordem de Cristo; 1455, - Bula "Inter Coetera" do Papa Calixto III confirmando a doação; 1472, - D. Beatriz, administradora da Ordem de Cristo, ordena que não deixem entrar na ilha nenhum bispo ou outra pessoa por sua ordem ou representação, numa alusão ao bispo de Tânger, D. Nuno de Aguiar, escrevendo que se haveria de instalar futuramente um bispado na Ilha; 1485, - o ouvidor Brás Afonso Correia e o contador Luís de Atouguia demarcam o chamado Chão do Duque, junto à Ribeira de Santa Luzia; 1486, - D. Manuel cede chão para o concelho fazer Câmara, paço de tabeliães e picota; 1489, - acorda-se em reunião da vereação construir a "igreja principal"; 1493, - D. Manuel determina o recomeço da construção da igreja e nomeia João Gomes, o trovador, para vedor; provável início da construção da igreja, dedicada a Santa Maria; 1500, - estando as obras interrompidas, D. Manuel apela aos madeirenses para contribuírem com uma taxa para as mesmas; Câmara obtém a isenção da dízima da cal utilizada na construção; 1503 - D. Manuel faz doação anual de 1000 arrobas de açúcar para as obras da igreja, até elas terminarem; 1508 - sagração da igreja pelo Bispo D. João Lobo, designado pela Ordem de Cristo; 1512 - data de um pagamento do retábulo-mor, com trabalho de ensablagem deste e do cadeiral, que deve ter-se iniciado pouco depois; 1514 - elevada a Sé por bula de Leão X; nomeação do primeiro Bispo, D. Diogo Pinheiro.
Na igreja da Sé ou Catedral do Funchal está sepultado (na chamada capela de Santo António) o primeiro bispo madeirense da história desta Diocese - D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, bispo diocesano entre 1872 a 1874.
"Nasceu no Funchal em 1837, estudou teologia em Coimbra, voltou à ilha natal onde foi cónego, vigário-geral e bispo-coadjutor, sucedendo em 1872 a D. Patrício Xavier de Moura". Era filho de Aires de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura de sua mulher Augusta Correia Vasques Salvago de Brito de Olival. Nomeado arcebispo de Goa em Julho de 1874, cargo que ocupou durante seis anos até a sua morte em Novembro de 1880, aos 43 anos de idade. Durante a sua permanência em Goa, foi ainda membro do Conselho de Governo da Índia Portuguesa em 1877 e 1878.

João Godim
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