
A Rua do Carmo, no Chiado, em Lisboa, acolhe nesta quarta-feira uma "corrida" dos típicos "carros de cestos" usados como atração turística na freguesia do Monte, na Madeira. "Vai ser como uma coisa do outro mundo, os carros de cesto da Madeira a fazer descidas no continente", observa o presidente da Associação dos Carreiros do Monte, Norberto Gouveia. "Tenho a certeza de que muita gente vai ficar espantada. Acho que vai chamar muito a atenção das pessoas. E alguém vai explicar que é uma tradição da Madeira, onde os carros de cesto funcionam durante todo o ano", realçou.
A iniciativa é do Governo Regional, no âmbito da promoção do destino Madeira, mas os protagonistas são os carreiros, um grupo profissional composto por 150 homens que manobram diariamente cerca de 90 carros, transportando sobretudo turistas por uma sinuosa descida de dois quilómetros. Nesta demonstração, em Lisboa, vão estar dez carreiros e cinco "carros de cestos", dando a conhecer uma tradição que remonta ao século XIX, ao ano de 1850, por ideia de Russel Manness Gordon que então vivia no Monte, na Quinta Gordon, atualmente Quinta Jardins do Imperador, e que pretendia por este meio chegar rapidamente à cidade do Funchal, onde era comerciante de vinhos.

O "carro de cesto" foi considerado pelo canal televisivo norte-americano CNN um dos sete meios de transporte mais "fixes" do mundo. O transporte madeirense surge nesta lista em quatro lugar. Os outros transportes eleitos são: o Rideau Skateway, em Ottawa, no Canadá; o Roosevelt Island Tramway, em Nova Iorque; o Teleférico de La Paz, na Bolívia; o Central-Mid-Levels Escalator, em Hong Kong; o The Walberswick Ferry, de Sulfolk, no Reino Unido; e o CycloCable, na Noruega.
Por outro lado, destaca-se ainda no transporte madeirense o "carreiro" ou homem responsável pela condução, vestido com calças e camisa brancas, chapéu de palha, uma corda (utilizada para manobrar o carro) e um par de botas, modelo típico da Madeira, feito com solas de pneu, para "agarrar" bem a estrada empedrada, sempre a descer.

Cada "carro de cesto", feito de vimes e madeira, também conhecido por "carro do Monte", é normalmente controlado por dois homens e pode transportar duas ou três pessoas ao mesmo tempo. O início da carreira faz-se nos arredores da Igreja do Monte, dedicada a Nossa Senhora, um templo notável que acolhe também os restos mortais do último Imperador de Habsburgo, Carlos d' Áustria, que morreu na Madeira em Abril de 1922, na sequência do exílio a que foi obrigado, no contexto da I Grande Guerra. Apesar de viver pouco tempo na Madeira (entre Novembro de 1921 e Abril de 1922), com toda a família (a Imperatriz Zita e vários filhos) foi muito acarinhado pela população e com certeza também apreciou o meio de transporte tão popular na época - os "carros de cestos", que atualmente "transportam, em média, 12 mil passageiros por mês e 150 mil por ano". É só experimentar para ver, nesta quarta-feira, no Chiado...

João Godim
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