Foi com Vinho da Madeira que os americanos fizeram um brinde na cerimónia da independência dos Estados Unidos da América, a 4 de Julho de 1776.
Por estes dias, até 6 de setembro, realiza-se a "Festa do Vinho Madeira", com eventos diversos - apanha da uva, fazer vinho nos lagares, cortejos dos vindimadores, provas ao vivo...; tudo centrado, principalmente, no Funchal e em Câmara de Lobos.
A iniciativa, com forte apoio oficial, visa atrair o turismo e reconstituir as antigas tradições da população madeirense, com destaque ainda para as especialidades gastronómicas e outras bebidas típicas da ilha.
Neste contexto, recorde-se que a produção vitícola está profundamente enraizada na população insular e é uma marca da sua paisagem física, com parreiras apoiadas nos socalcos e suportes de pedra, e que ganham múltiplas tonalidades ao longo do ano. Mais do que qualquer outra produção (cana de açúcar, por exemplo, plantada desde os primórdios da colonização), é o vinho que torna a Madeira famosa em todo o mundo.
Festejar este "néctar dos deuses" é também homenagear aqueles que, outrora, galgando montanhas e veredas, transportavam o vinho para a sua comercialização. Ficaram conhecidos como "borracheiros" e as vasilhas (feitas com pele de cabra) eram os "borrachos"... O significado de "borracho", hoje em dia, parece ter a ver com esta prática: "borracho" - que está "alcoolizado", "embriagado"...
Quanto aos "borracheiros", vinham principalmente do Porto da Cruz, freguesia nortenha, a seguir a Machico, afamada pelo seu "vinho americano", onde se distingue também o rochedo da Penha D´Aguia.
Os "borracheiros", que eram trabalhadores contratados para transportar o precioso líquido até às adegas do sul da ilha, vinham em grupo, caminhavam em "fila indiana", percorrendo longas distâncias, 20 quilómetros e mais para entregar os seus "borrachos" (cada "borracho" seria equivalente a um barril de aproximadamente 45 litros). Nesta caminhada destacava-se também o "candeeiro" na frente, que era a pessoa que "iluminava" os participantes neste transporte original que hoje ainda se inclui nos cortejos das vindimas, um pouco por todo o lado.

João Godim
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