Fernando Pessoa, o poeta dos heterónimos, nasceu há 127 anos, a 13 de Junho de 1888; Este ano (2015), passam 80 anos sobre a sua morte, a 30 de Novembro de 1935. Sobre a importância de uma data e outra ele próprio disse: «Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada de mais simples. Têm só duas datas: a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus».
O seu nome completo era Fernando António Nogueira Pessoa (António, em homenagem ao santo de Lisboa, cidade onde também nasceu, perto da Igreja dos Mártires). Órfão de pai aos cinco anos a sua primeira poesia, data de 1895, é dedicada "À minha querida mamã". Mas, antes, em 1894, cria o seu primeiro heterónimo, o "Chevalier de Pas"...
Aos oito anos, parte para a África do Sul, devido ao casamento da sua mãe com o então cônsul de Portugal em Durban; viaja no navio "Funchal" até à Madeira e dali no paquete inglês Hawarden Castle.
Depois de um percurso académico notável, de produções literárias diversas e de profundos conhecimentos de literatura inglesa, regressa a Portugal em 1905, definitivamente. Em 1915 (ano da publicação da revista Orpheu), numa carta ao poeta Armando Côrtes-Rodrigues, fala das pessoas em que se tinha multiplicado: «É sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito de vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir».
A sua própria escrita permite uma breve entrevista sobre esta temática, que nesta oportunidade sugerimos (tendo por base um artigo que publicámos em 2003):
- Fernando Pessoa, como explica a sua tendência para criar heterónimos?
«A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim; (...) a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. (...) Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser eu, tem-me acompanhado sempre...»
- Isso não significa também o desejo de ficar célebre?
«A celebridade é um plebeísmo. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica. Depois, além do plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece».
- Então, é pela vida intelectual intensa que justifica a existência de outras "pessoas"?
«Tudo o que em mim é exclusivamente intelectual é muito forte, e mesmo muito saudável. Quero sempre fazer ao mesmo tempo três ou quatro coisas diferentes. A acção pesa sobre mim como uma danação: agir, para mim, é violentar-me. (...) A minha vida psíquica é uma espécie de curso de desmagnetismo pessoal.»

- Uma procura pela verdadeira identidade?
«O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente. (...) Eu sou um doido que estranha a própria alma.../Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos.»
- Mas há uma biografia do Pessoa nas "pessoas", máscaras e heterónimos, que criou?
«Venho de longe e trago no perfil,/ Em forma nevoenta e afastada, /O perfil de outro ser que desagrada/ Ao meu actual recorte humano e vil...»
- Como define, por exemplo, o perfil de Alberto Caeiro?
«A vida de Caeiro não pode narrar-se , pois que não há nela de que narrar. Apenas direi que a obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, tal como nem os gregos nem os romanos o puderam fazer. Como escreve ele no poema "Guardador de Rebanhos": há metafísica bastante em não pensar em nada.»
- E que diz de Ricardo Reis?
«Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da sua obra. Cada qual de nós - opina o Poeta - deve viver a sua própria vida, buscando o mínimo de dor ou (...) o homem deve procurar sobretudo a calma, abstendo-se do esforço e dos prazeres violentos».
- Finalmente, Álvaro de Campos?
«É o poeta da prosa ritmada. Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande ciência do ritmo. Nele há uma disciplina da forma, (...) uma emoção naturalmente ordenada, traduzida num ritmo ordenado (...). Veja-se a "Ode Triunfal", ou a "Ode Marítima"... "Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! / Ah, quem sabe, quem sabe, /Se não parti outrora, antes de mim...»

Obs.: Hoje, sabe-se que Fernando Pessoa criou mais de uma centena de personagens literárias, para além dos heterónimos aqui citados, mais conhecidos e estudados. Para se conhecer melhor a sua obra, sugerimos o trabalho feito por Jerónimo Pizarro, que é Professor da Universidad de los Andes, Titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e Doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa.

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS