Filósofa alemã, de origem judia, Hannah Arendt (1906-1975), referência do pensamento contemporâneo, autora de "As Origens do Totalitarismo", nasceu há 110 anos, no mês de outubro.
Voz incómoda e testemunha directa dos horrores da II Guerra Mundial, escreveu obras de cariz político e foi defensora dos Direitos até à exaustão, contrariando poderes e criticando as crises programadas da dita "sociedade moderna", em que abundam as palavras como "justiça, responsabilidade, razão, glória", mas falta concretizar esses conceitos e "valores fundamentais".
Numa das sua obras mais divulgadas, "A condição Humana" (publicada em 1958), Hannah Arendt identificou problemas que ainda hoje são muito actuais, como a "diminuição da acção humana e da liberdade política; a relação paradoxal entre o aumento do poder humano através da pesquisa tecnológica e a capacidade cada vez menor de controlar as suas consequências, o declínio da esfera privada".
Hannah Arendt nasceu em Hannover (Alemanha), estudou na Universidades de Marburgo e Friburgo, e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Heidelberg, onde foi aluna de Karl Jaspers. Em 1933, mudou-se para França e, em 1941, foi para os EUA, tornando-se mais tarde cidadã norte-americana.
Foi professora convidada de várias Universidades; conferencista em várias partes do mundo; e repórter da revista “The New Yorker” quando relatou o julgamento, em Jerusalém, de Adolf Eichmmann, um alto responsável pelos crimes de guerra nazis e a chamada "solução final". Foi preso pelos serviços secretos israelitas, na Argentina, em 1960, mas que para Hannah Arendt não passava de um "funcionário zeloso" que cumpriu e não questionou as ordens recebidas.
Este julgamento deu matéria para o livro “Eichmann em Jerusalém” que provocou duras críticas da comunidade judaica, e também uma grande polémica, porque a autora também deu exemplos de judeus e instituições judaicas que se submeteram aos nazis ou cumpriram as suas directivas sem questionar.
São lições da História que não se podem menosprezar, sobretudo num tempo como o nosso em que, como dizia Hannah Arendt, a "banalidade do mal" é tida como "normal" e frequente.

João Godim
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