Os tratados, acordos e alianças entre povos e países sempre aconteceram de acordo com os interesses de cada um, em nome da defesa e ajuda mútua, da tradição diplomática, das amizades de conveniência.
Como hoje, também no passado estabeleceram-se "convenções", no contexto de determinadas situações, como a que se fez em 1807, no dia 22 de Outubro, entre as monarquias de Portugal e da Inglaterra.

Dados históricos revelam que nesta data Portugal empenhava-se na resistência às "invasões francesas", impostas por Napoleão Bonaparte; ao mesmo tempo que se estabelecia uma convenção "luso-britânica" sobre a "transferência da monarquia portuguesa para o Brasil (o que veio a acontecer em 1808) e a ocupação da ilha da Madeira por tropas inglesas".
Era o preço a pagar pela defesa do território continental, com o apoio "amigo" de um velho aliado, que podia contribuir com "forças militares" em vários pontos do país.

Portugal, com territórios e colónias à sua mercê, um vasto império iniciado no século XV, estava então subjugado pelo "medo", a ponto de admitir a "ocupação" das suas ilhas atlânticas, com todas as consequências que se conhecem.
Esta situação traz-nos à memória um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), intitulado precisamente "O Medo":
Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes. (...)
(...) O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.

Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

João Godim
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