O cidadão português Otelo Saraiva de Carvalho, 82 anos de idade, coronel do exército reformado, assume-se como o estratega do 25 de abril de 1974 que derrubou o regime da ditadura. Assume-se e é reconhecido como tal pelos seus camaradas. De Otelo, natural de Moçambique, já muito se disse mas, sempre que fala da guerra e da revolução dos cravos, algo de novo é revelado com inusitada surpresa.
Decorridos 45 anos da revolução Otelo (no lado esquerdo da foto) é convidado pelo “Governo Sombra” da TVI e pela revista “Nova Gente” para recordar os tempos históricos então vividos na guerra e da estratégia que engendrou para derrubar a ditadura. Das comissões que fez na Guiné e em Angola declara que nunca disparou um tiro:
> Nunca disparei a minha arma durante a guerra”;
> Sofri emboscadas, com tiros a passar-me por cima;
> Nunca me deitei ao chão para disparar;
> Levava muitas vezes a arma descarregada”…
Com tais afirmações, apanhou-nos de surpresa, a nós e a milhares de militares que combateram na guerra em África.
Como? Onde? O quê? Sofrer emboscadas e ficar de pé? Não ripostar quando o inimigo (turras) disparava a matar? Com a arma (G3) sem balas? Das duas, uma: ou nunca caiu numa emboscada a valer, daquelas que causam mortes, feridos e carros militares a arder, ou teve a sorte de refugiar-se no capim, atrás de um formigueiro, enquanto os seus camaradas enfrentavam o inimigo, ou nos bombardeamentos ao vulnerável quartel era rápido a refugiar-se num abrigo.
Se Otelo Saraiva de Carvalho participou na guerra na Guiné, mobilizado por imposição, tal como nós e de milhares de jovens, com a postura que agora revelou nas entrevistas aos mass media atrás referidos, teve a sorte que mais ninguém teve. Otelo não foi um combatente, não tem direito a ser considerado “antigo combatente”, sem nada de regozijo, porque, como diz, não combateu.
Da estratégia do 25 de abril, já entramos noutra guerra. O “inimigo” era um regime a cair de podre. Ouve coragem e mérito de todos os intervenientes. Já estamos ao lado de Otelo quando esperava por outro andamento da democracia que veio a ser aprisionada por ideologias e falsas promessas. Tem razão quando recorda o ataque soez de “ Manuel Monteiro e Paulo Portas (CDS/PP)… “chamaram-me assassino”. É bom de ver, os dois políticos e muitos outros não teriam lugar na política sem o 25 de abril.
São alegorias de um militar que também esteve na Guiné. Sem balas e sem disparos. Como em tudo na vida... há vilões e heróis.

João Godim
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