Num tempo em que abundam as críticas, as polémicas e os ataques contra os Descobrimentos europeus, nomeadamente a expansão territorial levada a cabo pelos portugueses e "escravatura" das populações então realizada, como, dizem, nunca se tinha visto antes, eis que surge à luz do dia uma investigação corajosa e científica que coloca em causa também a actuação de outros povos neste capítulo negro da escravatura humana, praticada durante muitos séculos e muito anos antes dos europeus entrarem nestes negócios...

Não se pode explicar o contexto histórico de uma determinada época à luz dos conhecimentos actuais, porque seria anacrónico, mas muita coisa foi escondida, sonegada, a favor de uns que pareciam estar incólumes em relação a tudo; enquanto outros, como os portugueses e os espanhóis de há 500 anos, por exemplo, foram e são alvo de ataques constantes por causa da "escravatura" que praticaram, em detrimento de outros feitos incontestáveis que "deram outros mundo ao mundo".
Só que a História não se pode apagar, como revela um livro recentemente publicado entre nós (pela Gradiva), intitulado "O Genocídio ocultado". O seu autor - Tidiane N’Diaye é franco-senegalês, é um antropólogo e um economista de renome, e trabalha no Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos francês.
Trata-se de investigação Histórica sobre o tráfico árabe-Muçulmano, "sete séculos antes do tráfico de escravos europeu, que não poderia ter, aliás, a dimensão que teve sem a participação dos negreiros árabes e africanos".
Em resumo: "Os Árabes arrasaram a África subsariana durante treze séculos sem interrupção. A maior parte desses milhões de seres humanos que deportaram desapareceu, em resultado do tratamento inumano que lhes foi infligido. Essa dolorosa página da História dos povos negros não foi ainda definitivamente voltada.
Esse tráfico começou depois do fornecimento de escravos no Leste da Europa se ter esgotado, quando o emir e general árabe Abdallah ben Saïd impôs aos Sudaneses um bakht (acordo), concluído em 652, obrigando-os a entregar anualmente centenas de escravos. A maioria desses homens provinha das populações do Darfour.
E começou aí uma enorme horrorosa punção humana que só terminaria oficialmente no século XX. Muito depois da escravatura na Europa e do tráfico atlântico terem sido reconhecidos, abolidos e punidos."


João Godim
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