O tempo histórico passa mas as marcas que os protagonistas de cada tempo deixaram jamais se apagam, sejam boas ou menos boas; ficam para sempre, resistem às inovações, e elevam-se como monumentos, como testemunhos para as gerações vindouras.
Na lista dos resistentes com valor, apesar das circunstâncias em que foram chamados a governar, há quem mereça ser lembrado, mais não seja pelo saber e o conhecimento aprofundados, fruto de todo um trabalho feito a pulso, procurado e vivido com humanismo, a exemplo de tantos outros nos séculos precedentes, figura Marcello Caetano, jurista, professor universitário, "delfim do Estado Novo", último presidente do Governo, antes do 25 de Abril de 1974.
No seu pensamento político, considerava que não pode haver sociedade sem "autoridade"; e costumava dizer que "a liberdade não se recebe, conquista-se. Só que não é pelo verbalismo irresponsável nem pelo anarquismo revolucionário que os povos podem conquistar as liberdades de que precisam. Eu entendo que os cidadãos só conquistam a liberdade à maneira que vão assumindo responsabilidades", dizia o especialista em Direito Administrativo numa entrevista a António Alçada Baptista, publicada em livro em 1973, intitulada "Conversas com Marcello Caetano".
Um livro com muitas lições para o nosso tempo caracterizado por superficialidades e em que faltam estadistas de nível. Um livro que não deixa de ser actual ou ter muito de actualidade, digamos, intemporalidade. Sem melindres, sem parcialidades e sem ideologias. Uma leitura livre e isenta. Sem preconceitos.

João Godim
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