Assinala-se, hoje, 9 de Maio, o "Dia da Europa", em referência à proposta feita, em 1950, por Robert Schuman, ministro francês dos Assuntos Externos, para a criação de uma autoridade comum destinada a regular a indústria do carvão e do aço na Alemanha Ocidental e em França. Foi o primeiro passo político para a União Europeia (UE). Mas, questiona-se, no presente, como está o ideal europeu? Como reagir perante certos líderes políticos que ameaçam promover um "referendo" sobre o interesse ou não em permanecer na UE (caso do Reino Unido).
Há muito que esta questão de ser ou não ser europeu de corpo inteiro tem ocupado algumas mentes, figuras destacadas da sociedade civil, para além das pretensões políticas e governamentais dos Estados membros da UE. É o caso, por exemplo, do filósofo e ensaísta português Eduardo Lourenço que considera que a União Europeia quis "andar muito depressa" e esse facto "pode estar na origem da crise que [se] atravessa actualmente".
"Provavelmente quis-se andar muito depressa, provavelmente teria sido mais interessante que os Doze [Estados] se tivessem consolidado como um grande núcleo, com mais organicidade e mais regras de actuação democraticamente aceites", servindo "de pólo de atracção" a outros países, observa o ensaísta. "Mas não foi isso que se fez. Com a queda do muro de Berlim, a Europa ficou à deriva" . Questionado sobre uma perspectiva optimista para a União Europeia e o modelo que gostaria de ver a funcionar no espaço europeu, o autor do livro "A Europa Desencantada. Para uma mitologia europeia" admitiu que a Europa nunca será uns "Estados Unidos" ainda que tenha sido uma "utopia de Victor Hugo no século XIX".
Eduardo Lourenço diz que "a Europa não é, nunca foi os Estados Unidos, não pode ser os Estados Unidos. É uma nação que se tornou federal pelo espaço, para harmonizar distâncias, com um centro que pudesse realmente tutelar esse sistema político. Foi democraticamente votado e tem sobretudo um cimento fantástico que é a mesma língua, as mesmas tradições culturais, a mesma cultura", acrescenta. "Os Estados Unidos não são uma nação do tipo europeu, mas são uma nação. E que nação! E nós não somos essa nação!", sublinha.

Estas reflexões são também acolhidas por outro grande ensaísta do nosso tempo, George Steiner, que no seu livro "A Ideia de Europa" pergunta pela "identidade europeia" quando o caminho aponta no sentido da "globalização de valores e mercados"? Ou, como interroga Rob Reiner, "a Europa continua a ser uma boa ideia?". "Qual é realmente a importância e relevância política do ideal europeu de civilização?" Como responder a estes desafios?
No essencial, defende George Steiner, é preciso reaprender que a ideia de Europa é anterior à União Europeia. E que, aconteça o que acontecer, essa ideia irá sobreviver a ela.
Hino da UE > https://www.youtube.com/watch?v=jPYuPmQHcU0

João Godim
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