Presidente da República é
uma missão cívica de alto grau

Assim aconteceu, por exemplo, com o primeiro Presidente da República - Manuel de Arriaga, constitucionalmente eleito em 1911 (exerceu o cargo entre 24/08/1911 e 29/05/1915). Ambos formados em Direito; logo no seu primeiro discurso, o prof. Marcelo (que voltou à sua Universidade num "gesto simbólico de profundo reconhecimento para com esta Faculdade", declarou que: "Não há portugueses vencedores ou vencidos. Não há vencidos nestas eleições".

Manuel de Arriaga, no seu discurso de posse, disse ser depositário da “simpática missão de chamar à conciliação, à paz, à ordem, à harmonia social a família portuguesa, em nome da Liberdade, em nome da República, em nome da nossa libérrima Constituição”.
A História, de facto, faz-se com vencedores, a vários níveis, e com todos. Mas, o tempo contemporâneo não permite ainda julgar o que é e será o novo presidente (que tomará posse a 9 de março). Por muita análise e comentário que se faça, fica sempre alguma coisa por esclarecer, em abono da verdade, com objetividade e coerência. Como dizia alguém, devido às circunstâncias do momento "tornamo-nos muitas vezes naquilo que não somos", sem, contudo, abdicar dos princípios e convicções que interessam a toda a comunidade.
Como já estamos muito distantes do primeiro Presidente da República, podemos também lembrar a sua grande preparação política para a missão cívica que desempenhou em alto grau, pois, não se chega a atingir uma meta com pouco trabalho...

Então, Manuel de Arriaga nasceu em 1840, na cidade da Horta (Açores), descendente de famílias nobres açorianas. Estudou leis em Coimbra e pertenceu à chamada "Geração de 70", tendo aderido cedo aos ideais republicanos e participado, desde muito cedo, na vida política e cultural do país.
Em 1871, Arriaga foi um dos 12 signatários do programa das "Conferências Democráticas do Casino", ao lado de Antero de Quental, Adolfo Coelho, Teófilo Braga, Eça de Queirós, José Fontana, Oliveira Martins, Guilherme de Azevedo e Jaime Batalha Reis, numa tentativa de "preparar a opinião pública para o debate de temas filosóficos, sociais e científicos então em voga na Europa e, simultaneamente, planear um novo rumo para os destinos de Portugal".

Filiado no Partido Republicano, foi eleito por quatro vezes deputado pelo círculo da Madeira; e é com orgulho que a cidade do Funchal perpetua o seu nome com a Avenida Arriaga, frente à Catedral, muito concorrida. Em 1890, chegou a estar preso em consequência das manifestações contra o "Ultimato Inglês"..
Depois da proclamação do regime republicano, em 1910, exerceu as funções de Procurador da República. E em 1911 foi, então, eleito como primeiro Presidente da República de Portugal. Não teve uma vida fácil. Faleceu em 1917.

João Godim
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