As discussões e análises especializadas sobre a Europa, Deus e a Literatura, de uma forma geral, nunca se esgotam. E "nada disto é novo", como dizia Hanna Arendt (1906-1975). Quaisquer avaliações que se façam do passado e do presente têm inevitavelmente um ponto de vista subjectivo/objectivo, de oposição/contraste, liberdade/responsabilidade, até um nunca mais acabar de posições.
Ainda de acordo com a filósofa alemã, autora de textos marcantes sobre o pensamento político contemporâneo: "No nosso século até mesmo o génio só se conseguiu desenvolver em conflito com o mundo e o domínio público".

Da "discussão" nasce a "luz", costuma-se dizer, desde que os temas e assuntos em debate tenham "sentido" e interesse profundo, como fizeram muitos outros antes de nós, no passado próximo ou longínquo, caso de políticos, teólogos e escritores mais ou menos conhecidos.
Tudo isto vem a propósito do que se passa actualmente na Europa comunitária por causa do chamado "Brexit" inglês... O que diriam os "fundadores/construtores" da "União Europeia" perante esta situação que tanto dá que falar e provoca controvérsia de vários quadrantes?
Para o professor catedrático Hélder Macedo, que é também escritor e co-autor do livro “Camões e Cervantes – Contrastes e Convergências”, publicado recentemente pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e pelo Instituto Cervantes, situações como o "Brexit" seriam recebidas com "palavrões" pelos dois vultos máximos da literatura ibérica. "(Diriam) palavrões de toda a ordem. Acho que se reuniam os dois a tomar um copo e iam pelo vocabulário todo hispano-português (para descrever isto). Está nojento.

E não só na Europa. O que aconteceu no Brasil foi inacreditável. O que está a acontecer em Inglaterra parece uma daquelas operetas, estilo viúva alegre, mas com má música. Ao menos que desse para dançar, mas nem isso", comentou o escritor, que vive em Inglaterra e é um reputado ensaísta, e professor emérito do King’s College de Londres.
Hélder Macedo referiu que os dois autores foram influentes na literatura europeia, seja Cervantes, do qual é devedora a literatura inglesa do século XVI em diante e "que mudou a percepção do que veio a ser a ficção moderna", seja Camões, cuja obra "Os Lusíadas" foi usada também como referência na "Paradise Lost de John Milton".
Do mesmo modo, a discussão à volta de "Deus" e do Cristianismo" na Europa é sempre oportuna quanto se questionam os "quadros" e os "valores" da vida colectiva no nosso tempo.
Uma leitura interessante sobre este tema é o livro "Deus e a Europa" (publicado já há alguns anos) do jornalista e ensaísta Jean Boissonnat; ou o livro "Porque Devemos Chamar-nos Cristãos - As Raízes Religiosas das Sociedades Livres", de Marcello Pera, filósofo e político, antigo Presidente do Senado italiano.

João Godim
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