Obra exemplar da ourivesaria portuguesa
“Magnífica e única, esta cruz processional em prata dourada, encomenda de D. Manuel I (rei entre 1495-1521), tem a exuberância do estilo influenciado pela grandeza da expansão marítima”. Oferecida à Sé do Funchal, em 1528, destaca-se como uma obra exemplar da ourivesaria portuguesa, a par de outra “peça grandiosa”, da mesma altura, como é a “Custódia de Belém”.
Segundo o investigador Henrique Farrajota Seruca, autor do livro “A Cruz Processional da Sé do Funchal”, com prefácio do historiador Vítor Serrão, e que foi lançado há poucos dias no Museu de Arte Sacra do Funchal, o ourives desta “cruz processional” é António de Holanda, e não Gil Vicente (o famoso dramaturgo português, 1465 - 1536) como até agora era suposto.
António de Holanda foi um importante pintor e mestre de iluminuras, que trabalhou em Portugal no início do século XVI. Não se conhecem o local e a data de seu nascimento, mas crê-se que tenha nascido nos Países Baixos entre 1480 e 1500, e falecido em 1571; foi pai do famoso pintor e humanista Francisco de Holanda (1517-1584), natural de Lisboa, “um dos mais relevantes expoentes da reflexão estética no renascimento português”, que aprendeu na oficina do seu progenitor, estudou em Roma e conviveu com famosos artistas do seu tempo, como Parmigianino, Giambologna e, principalmente, Miguel Ângelo.

Outra revelação interessante feita pelo dr. Henrique Farrajota Seruca é que a feitura da Cruz Processional da Sé do Funchal muito se deveu à determinação da mãe de D. Manuel I, D. Brites ou Beatriz (1430 - 1506), duquesa de Viseu, que à época exerceu grande influência junto do monarca em vários domínios da governação, incluindo o desenvolvimento da ilha da Madeira que estava nas suas mãos dirigir.
Casada com o rei D. Fernando (que era afilhado e herdeiro do infante D. Henrique – O Navegador, D. Brites (ou Beatriz) “teve um papel decisivo na consolidação da monarquia portuguesa no espaço ibérico, abrindo ainda caminho para a grande glória da nossa História que foi a expansão ultramarina.” Nunca foi rainha, mas deixou descendentes notáveis, como a rainha D. Leonor, a fundadora das Misericórdias, e D. Manuel I, que passou à História como o rei “Venturoso".

João Godim
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