Eusébio foi útil ao Estado Novo, governo dito fascista, como está a ser útil ao Estado Democrático, governo dito do povo. A única diferença é que no antes Eusébio ganhava fama nos relvados, no agora caíram catadupas de elogios quando já nada pode fazer. A verdade é que o adeus ao ídolo do futebol fez passar despercebida a chegada do OE para 2014 que inflige uma mortífera derrota a milhões de portugueses. O governo PSD/CDS aproveitou-se, e bem, justiça lhe seja feita, da morte de Eusébio, apoiado por aqueles discursos e cenas pungentes na Assembleia da República, no voto para o Panteão e nas infindáveis ovações ao homem que aos 18 anos veio de Lourenço Marques para Lisboa. A comoção dos governantes e políticos foi demais. Um aproveitamento nada ético vindo de quem acusava Salazar de usar os três efes (FFF – Futebol, Fado e Fátima) para alienar o povo.
Só que os três efes, gerados durante a ditadura, afinal são expoentes máximos das nossas raízes culturais e religiosas de Portugal no Mundo. Em 47 anos no poder, Salazar deixou-nos uns efes com a mais alta galhardia internacional; Em 40 anos de democracia, que siglas temos com idêntica ou aproximada dimensão mundial? Parafraseando Blaise Pascal “Aproveitar-se dos feitos dos ídolos vivos para fins políticos é ruim, pior ainda é aproveitar-se dos ídolos mortes para alhear os cidadãos do que se está a passar”. O governo da ditadura terá eventualmente se aproveitado do prestígio mundial de Eusébio como se aproveitou o governo PSD/CDS, após a morte do ídolo. Nem é casualidade o facto de, no próximo dia 20, o presidente Cavaco Silva condecorar Cristiano Ronaldo, outro símbolo do futebol mundial. Nota evidente que se a ditadura aproveitou-se dos três efes, a democracia põe-se de joelhos ante o defunto Eusébio.
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Os três efes (FFF) > Fátima (Religião), Fado (Amália) e Futebol (Eusébio)

João Godim
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