As Folkehøjskole são Escolas Populares Superiores na Dinamarca. A primeira vez que tomámos conhecimento deste conceito de ensino foi na Tertúlia roinesxxi, de 25.02.2009, quando a colega Marília, da Universidade Sénior, revelou ter visitado uma Folkehøjskole e sobre a qual ficou com muito boa impressão.
Em consulta à CECIERJ, deparámo-nos com um texto de Léo Silva que nos dá preciosas achegas para melhor conhecermos esta realidade de sucesso educativo num dos países mais evoluídos da Europa. Com a devida vénia transcrevemos parte do texto que merece uma leitura atenta dos roinesxxi e de todos os interessados na aprendizagem ao longo da vida. Uma boa ponte para a mobilidade que a Universidade Sénior pretende estabelecer.
- “A tradução ao pé da letra da palavra dinamarquesa Folkehøjskole seria alta escola popular, sendo Escola Popular Superior a tradução corrente em Portugal. O popular do nome faz referência ao público que se pretendia atingir. Na época de sua criação, eram, basicamente, fazendeiros que não tinham tempo para ir para a universidade.
Actualmente, essas escolas fazem parte da política de educação geral de adultos daquele país. Essa política segue o conceito de Folkeoplysning - iluminação do povo. O conceito foi criado por Grundtvig, personagem-chave no movimento das escolas populares superiores.
No início de 2002, segundo o Ministério da Educação do Reino da Dinamarca, havia 84 Folkehøjskole no país. Cerca de 48 mil pessoas fizeram seus cursos, que tinham de 4 a 36 semanas de duração.
Os princípios que norteiam tanto a Folkeoplysning e as Folkehøjskole foram formulados por Nikolai Frederik Severin Grundtvig. Ele foi religioso, escritor, poeta, professor e filósofo.
As ideias de Grundtvig sobre educação foram publicadas pela primeira vez nos anos de 1830. Elas foram fortemente influenciadas por sua passagem pela Inglaterra, em especial sua visita ao Trinity College, na Universidade de Cambridge. O que mais chamou a sua atenção foi que o diálogo entre professor e aluno era o tema dominante, sendo aberto, intenso e contínuo. Essa será uma das marcas das futuras escolas superiores populares.
As reflexões de Grundtvig sobre educação eram norteadas por cinco ideias centrais:
1 - A palavra viva (det levende ord) - Para ele, desde sempre, foi por meio das palavras proferidas pela boca que os homens revelaram e constituíram sua essência. Sem elas, não haveria vida. Seguindo essa lógica, o livro deveria ficar em segundo lugar. As palavras impressas deveriam ser trazidas a vida pela palavra viva.
2 - Iluminação para a vida (livsoplysning) - Apesar de saber que as pessoas poderiam aprender na sala de aula teoria e factos úteis para a vida, para Grundtvig a iluminação para a vida só poderia ser ensinada pela própria vida. Só esse tipo de iluminação poderia ensinar alguém a ser capaz de perceber o certo e o errado. Adquirir esse tipo de conhecimento seria a tarefa mais profunda de todos os seres humanos, sendo esse aprendizado resultado de suas reflexões sobre suas experiências pessoais. A escola seria capaz apenas de dar os fundamentos para que esse processo acontecesse.
l3 - 3 - Iluminação do Povo (folkeoplysning) - Na opinião do pastor dinamarquês, todos os povos da terra tinham um papel valioso a desempenhar na história do mundo, sendo que esse papel estava previsto no plano de Deus para a criação. Por isso, ele tinha grande interesse e respeito por todas as culturas humanas. Assim, nunca pregou ser a cultura dinamarquesa superior as outras do mundo. Do mesmo modo, ele também não tinha uma visão idealizada dos movimentos de base. Por um lado, acreditava que os seres humanos nasciam em culturas e contextos históricos particulares, dentro dos quais sua experiência de Iluminação deveria ocorrrer. Por outro, propunha que esse processo tinha aspectos coletivos e individuais. Por essa razão, deveria ser uma meta de todas as sociedades propiciar condições por meio de políticas para que houvesse condições para que a Folkeoplysning ocorresse.
4 4 - Dialógo equilibrado (Vekselvirkning) - A pré-condição para que o processo de iluminação ocorresse era o estabelecimento de canais de comunicação de mão dupla. Com isso, ele se posicionava contra a tendência que existe em todos os povos e entre as instituições sociais de tentar controlar umas as outras, ao criar fluxo onde o poder era unidireccional. Um exemplo disso seria a sala de aula na qual o professor tenta controlar os alunos para inculcá-los com seu conhecimento e suas posições.
Grundtvig defendia que todos os centros de poder, todos os indivíduos, deveriam reconhecer o direito de existir dos outros e que, por meio do diálogo, todos poderiam aprender e ensinar. No longo prazo, essa troca criaria as condições necessárias para que a iluminação ocorresse. Dessa forma, as ideias de Grundtvig se opõem a tradicional ênfase liberal no individualismo e na ideia de que era necessária uma ruptura violenta para se conseguir a transformação da sociedade. Para ele, essa poderia vir de forma pacífica.
5 5 - As pessoas comuns acima das educadas (folket overfor de dannede) - A fonte da Iluminação seria a sabedoria popular acima e sobre a das pessoas educadas e da elite. Dessa forma, as pessoas comuns seriam a fonte da Iluminação”.