Por incrível que pareça, quase não recordo de como passava em casa, excepto de uma boneca que acarinhei durante toda a minha infância, tirada do sapato posto na chaminé antes da ida para a missa – do - galo. Nunca esqueci, pois foi mesmo o Menino Jesus que ma deu por me ter portado bem, uma vez que ninguém ficou em casa para a colocar lá. Até hoje vivo com este sonho, pois a minha mãe (só pôde ser ela) nunca contou o segredo.
Era na Igreja da aldeia que estava toda a magia daquela noite!... Apinhada de gente (muitos que durante o ano não iam à igreja, nessa noite faziam questão de marcarem a sua presença) para vivenciarem mais uma vinda do Menino Jesus. Todos, às escuras e silenciosamente faziam a ligação com Belém que para mim situava-se no Céu… Os olhares fixavam-se no púlpito à espera do Divino que a qualquer momento surgiria…O coração palpitava….lá surgia aquela figura resplandecente, em forma de anjo que com voz melodiosa anunciava o Nascimento.
As luzes acendiam-se todas, os sinos da Igreja repicavam arduamente, ouviam-se coros celestiais de todos os pontos da igreja feitos por anjos, pastores etc. No entanto, era no presépio que ficava, agora, toda a concentração. Como o Menino era doce, sorridente, amável e sobretudo lindo!... Queria brincar com Ele, não O deixar sozinho, pois talvez teria medo quando fechassem as portas da igreja e apagassem as luzes…. O resto da missa, para mim, era insignificante.
Vinha a parte, digamos profana, embora relacionada com a quadra natalícia – as romarias. Estas eram preparadas com alguma antecedência por cada sítio ou grupo. Estes entoavam cânticos, ao som de variadíssimos instrumentos e aproximavam-se do presépio com as prendas que lá deixavam ficar.

Um pouco de tudo aparecia ali:” cebolas,” semilhas”, batatas, couves, abóboras, ovos e galinhas de tudo trouxemos, Menino Jesus”. A música era quase sempre adaptada de outras canções. O pároco recebia comestíveis caseiros, nessa noite, que dava para viver despreocupado quase todo o ano. A melhor febra do porco e fruta ia ali parar – tudo era dado com a melhor vontade e até satisfação.
O pároco, em voz firme, agradecia e a todos desejava “umas boas festas” não esquecendo os filhos da Terra emigrantes… Aqui, por quase todos os rostos corria uma lágrima de saudade, mas tinha de ser – era para melhorar a vida que nesse tempo então era bem difícil.
Todas as cerimónias terminadas, o povo, completamente extasiado, regressava a casa para celebrar em família o grande dia – não se visitava nem recebia visitas. Só o amor dos familiares directos vibrava no coração de cada um. Os abraços e beijos multiplicavam-se ou então dormia-se para retemperar a energia perdida durante a Grande Noite.
Que saudade tenho de viver o Natal desta maneira. Como desejo que cada criança, dos nossos dias, possa viver profundamente o Natal...A quem cabe esta missão? Fica ao livre arbítrio de cada um.
Cecília Pestana
membro do roinesxxi

João Godim
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