Natal na Guiné-Bissau... em tempo de guerra!
Foi por estes dias, em 1971, que a minha vida esteve por um fio. Uma emboscada nas matas da Guiné surgiu estrondosamente como se fosse o apocalipse. Foram minutos infernais debaixo de fogo cerrado, mortos, feridos, carros militares a arder, vozes imperceptíveis, gemidos, o aproximar do fim da vida terrena para cerca de três dezenas de jovens militares amadores obrigados a irem para a Guiné combater os inimigos dos militares profissionais e do Governo da República. Num ápice despejei as cinco cartucheiras da G3, disparando na direcção do inimigo. A meu lado vi colegas gravemente feridos, vi o braço chamuscado separado do corpo de um outro colega, vi um jovem negro com sangue pela cara abaixo e a dor expressa nos olhos aterradores, vi atrás de mim um carro a arder, ouvi vozes do inimigo cada vez mais próximo de nós, vi que já não tinha balas nas cartucheiras e que a G3 fervia devido a tanto disparo. O inimigo tinha o controlo da situação.
Foi então que fiquei sem saber o que fazer. Sabia que podia ser feito prisioneiro e levado para a mata, sabia que podia ser morto à queima-roupa, sabia que podia ser torturado. Já não tinha arma útil, já não tinha balas, tinha apenas uma granada presa à cintura. Num flash fiquei com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, fiz o sinal da cruz na testa, agarrei na granada pronta para o arremesso ou deixá-la explodir junto de mim, pondo fim à vida. Não queria, de modo algum, ser levado prisioneiro pelo inimigo. Já não haveria mais Natais. Ainda preso à imagem de Fátima, oiço o barulho de aviões, oiço novos bombardeamentos, era a ajuda “vinda do céu” pelos caças da força área que entretanto vieram em nosso auxílio. O inimigo foi silenciado e nós, os que escaparam à morte, estavamos aparentemente salvos. Ao sair do lugar onde estivera debaixo de fogo, à distância de dois metros, talvez nem tanto, vi um pequeno monte de invólucros da arma automática que o inimigo usava. Isto é, o inimigo passou praticamente a meu lado e não me viu.
Era o meu dia… num cenário de tragédia vagueei durante alguns minutos pela estrada rodeada de capim sem saber o que fazer. Era um vivo-morto! O Natal de 1971 nunca me sai da memória. Era eu um puto com 23 anos, forçado a ir para a Guiné, como amador, defender os militares profissionais que ficavam comodamente nos quartéis e os governantes da República nos seus ricos palácios em Lisboa.
João Godim
(Dezembro 2009)
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Recordação de Natal de uma criança
Em casa ouvia falar:
- Estamos quase a chegar ao Natal!
Palavra mágica no meu ouvido, a alegria era contagiante!
- Chegar ao Natal!
- Já escreveste a Carta ao menino Jesus?
Os dias aproximavam-se! Já estava tanto frio! Levávamos para a escola luvas e as socas de madeira com as meias grossas de lã; o nosso bafo parecia o fumo do cigarro...era só ver quem atirava mais longe!
O nariz vermelho bem frio! Lá íamos pelo caminho! Nas bermas calçávamos a geada, fazia barulho e escorregávamos...como era bom! Custava pegar na caneta, os dedos estavam gelados!
Pouco faltava para o Natal!
Chegava o dia da matança do porco! Tudo atarefado na noite anterior! Começavam os preparativos! As facas, os alguidares, tudo a postos na cozinha!
Texto completo no Diário da Hermínia
Hermínia Coelho Lopes
Universidade Sénior de Vila Nova de Famalicão
(Dexembro 2009)
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A Casa Encheu-se de Luz!...
Já lá vão vinte e cinco anos! Parecem muitos, vistos cronologicamente, mas tão poucos, se olhados a nível de sentimentos, recordações, vivências e tudo quanto se possa dizer a esse respeito.
Tudo foi calculado e esperado com nove meses de antecedência. Cada dia que passava era um novo fôlego de vida e esperança. Os meses nunca tiveram um significado tão grande. Cada um determinava uma fase concreta do ser que eu entranhava e delicadamente passava a missão da obra inacabada para o seguinte. Dezembro era o auge. Cada vez parecia mais resplandecente e desejado
As previsões apontavam para depois do dia doze. Ainda havia algum tempo de espera…
Eis que chega o dia quatro. Alguém bate à porta. Avidamente quis saber quem era. Oh! Como é grande! Que linda! Que perfeita! Parece-se com….e mais e mais. Tudo ouvia, atónita e serena, mas guardava tudo bem no fundo do meu coração. Era a vida no seu máximo esplendor, a continuação da minha vida, a carne da minha carne e o sangue do meu sangue -Em suma-o amor em carne e osso. Era a minha filha, ainda sem nome. Nesse ano, o Natal girou todo à sua volta: O Menino Jesus participou activamente em tudo, sobretudo no meu coração agradecido. À meia - noite, do dia vinte e cinco, lá estávamos, na Igreja, com o tesouro para apresentá-lo no presépio. Foi mesmo emocionante. Era o meu primeiro Natal de mãe. Tudo era alegria, perfeição e felicidade completa.
Este Natal está e estará, para sempre, guardado na minha memória, quase como o único, o máximo. Parabéns filha por mais este aniversário. Que sejas sempre muito feliz. Amo-te muito. (Dezembro 2009)
(Dezembro 2009)
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João Godim
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