"Que nós somos um produto do meio ambiente ninguém ousa pôr em causa, do mesmo modo que só evoluímos quando estamos disponíveis para participar efectivamente no espaço social, político e religioso", Petra Sullis. O saber “fechado” é tacanho, para não dizer estúpido, limitado. Já Platão revelava a cegueira que a luz do dia provocava ao sair da caverna. O mundo das trevas é doentio.
Não há vida valorizada sem integrabilidade plena no meio, espaço para ver, confrontar, expor, questionar, ouvir, rebater, aceitar e participar no pluralismo das ideias. As nossas vitórias e fracassos a nós pertencem, sem reticências. “Das derrotas passamos para as vitórias”, dizia Winston Churchill no célebre discurso na Câmara dos Comuns “Não nos renderemos”.
A dignidade diz-nos que assumir os fracassos é a nossa maior virtude para seguirmos em frente. Porque neste nosso mundo não há fantasmas, embora ainda possa haver quem acredite no Pai Natal.

Johann Coethe (1749.1832), escritor e cientista alemão escreveu uma frase profundamente realista: “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Saiba eu em que te ocupas e saberei também no que te poderás tornar”. Basta interpretar e questionar.
Lembro-me do que dizia Aristides Sousa Mendes sobre os nove anos em que viveu na Bélgica. “Convivi em tertúlias com Albert Einstein, Prémio Nobel da Física, e com o dramaturgo Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, entre outros, e com todos aprendi”. Não são pacotilhas, são realidades. Flick Story em cinemascope!
Agostinho da Silva (1906-1994), professor, filósofo e ensaísta dos mais conceituados no Portugal do século XX, continua a ter lugar no pensamento e na interpretação da realidade actual.
As suas palavras sábias, expressas em diversas obras acessíveis, e passados 113 anos do seu nascimento, registado neste mês de Fevereiro, manifestam-se ainda hoje com a máxima importância e grandiosa lição de vida. É o que se pode constatar através do livro "Páginas Esquecidas - Agostinho da Silva", publicado há pouco, numa selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota.

São páginas escritas em diferentes anos, situações e oportunidades, sobre inúmeros temas, mas que revelam uma enciclopédia de saberes fundamentais para todos os tempos.
"Penso (...) que todo o homem é diferente de mim, e único no Universo; que não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim e para os outros" (Agostinho da Silva, 1970).
As notícias que nos chegam da Venezuela revelam preocupante contradição. Por um lado, o governo diz ter sido democraticamente eleito e por tal defende a legitimidade do poder, por outro lado, o parlamento entende que tem a maioria dos eleitos o que lhe dá direito a assumir a chefia da nação. Extremos opostos que estão a gerar um conflito que apenas aos venezuelanos compete resolver.
A comunicação social venezuelana parece estar parcialmente ausente da situação, distancia-se da tribuna da informação, não dá a notícia pela notícia, deixando os cidadãos órfãos sobre o que se está a passar. Temos na Venezuela vários jornais nacionais: El Nacional, El Universal, El Mundo, Panorama Digital, El Diário de Caracas, 38 estações de televisão, dezenas de estações de rádio, entre outros meios de comunicação social.

Não há mutismo mas “medo” de noticiar? A imprensa é para noticiar e não para auto marginalizar-se. Os 33 milhões de venezuelanos (população) querem uma informação isenta. Os mass media estrangeiros por muito que queiram rigor noticioso estão sempre dependentes dos “informadores”, por muitos credíveis que possam parecer.
Já todos vimos que Juan Guiadó, 35 anos, engenheiro, é opositor a Nicolás Maduro, 66 anos, maquinista. Já vimos que a população está dividida, para não dizer, nalguns momentos, confusa, empurrada para as fronteiras sem saída. A contra informação anda à solta pelas redes sociais. O medo, a pobreza, a insegurança, o incerto dia de amanhã, “matam” a vida das pessoas.

Na Venezuela vivem cerca de 400 mil de descendência portuguesa, mais de 55 mil nasceram em Portugal. De1950 a 1969, chegaram ao território venezuelano 73 554 portugueses, dos quais 38 737 da Madeira, 17 286 de Aveiro e 7 214 do Porto. Venezuela era um paraíso (…) que veio a tornar-se num inferno para todos. Dizem que não há guerra… mas a guerra há muito que começou!
STRESS TRAUMÁTICO E TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL
Tema em debate, a 2 de março (sábado), pelas 15 horas, no auditório do Museu do Aljube.
Encontro com Jana Javakhishvili (Diretora do Instituto de Dependência da Ilia State University, em Tbilisi, na Georgia e actual presidente da ESTSS – European Society for Traumatic Stress Studies).
Participação de Afonso Albuquerque (Psiquiatra, pioneiro no apoio a presos políticos), Aurora Rodrigues (Presa e torturada pela PIDE em 1973), Diana Andringa (Jornalista, investigadora do Centro de Trauma/CES) e Luísa Sales (Psiquiatra, Coordenadora do Centro de Trauma/CES).
Com tradução simultânea.
> Still da reportagem “World in Action”, da Granada Television, realizado pouco tempo depois do dia 25 de abril de 1974.
Passam, neste dia 26 de Fevereiro, 90 anos sobre a morte do poeta português Augusto Gil. Tinha 55 anos. Embora natural do Porto (n. em 1873), cedo foi morar para a Guarda, na Beira interior, uma região que influencia muito a sua obra e sensibilidade poética, num misto de atmosfera sentimental, serenidade profunda e visão satírica da paisagem.

Escreveu vários livros de poesia, é autor de Contos - Gente de Palmo e Meio, e ficou conhecido, especialmente junto do povo, pelo poema que todos já ouvimos em diversos momentos e situações:
BALADA DA NEVE:
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
(...)
Grande Prémio de Literatura
A cultura literária portuguesa despediu-se, hoje, de um grande ensaísta e intelectual do nosso tempo - João Bigotte Chorão (1933-2019). Natural da Guarda, formou-se em Direito e trabalhou na Editorial Verbo, na qual coordenou a publicação de várias enciclopédias, entre as quais “Enciclopédia do Século XXI” e “Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia Logos”.
O seu nome, no entanto, ficou conhecido como um dos maiores especialistas de Camilo Castelo Branco. Deu ainda a conhecer grandes autores nacionais e estrangeiros, alguns dos quais retratados no livro com o título "Galeria de Retratos", publicado no ano 2000 pela Lello Editores. "Este livro" - disse na altura da sua publicação - "é, de certa maneira, um álbum em que se guardam também retratos, mas de gente mais ou menos conhecida, escritores e pensadores que são um nome e deixaram obra. Gente que me atrevo a reclamar como da minha família, não segundo o sangue, mas segundo o espírito - de todos, o vínculo mais fortes. Quem não nasceu ensinado gosta de saber.
Mas não é em professores e compêndios que se encontra o pão para a nossa fome espiritual e sim em mestres e livros que encontrámos graças a uma activa curiosidade autodidáctica que se revela contra a passividade de aceitar o 'magister dixit' e tudo o que a cultura oficial impõe. Somos o que somos também pelos autores e livros que escolhemos".
João Bigotte Chorão, foi membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo dirigido também o Círculo Eça de Queiroz. Em 2008 foi distinguido com o Grande Prémio de Literatura Biográfica pela Associação Portuguesa de Escritores, pela obra “Diário quase completo”, entre outras distinções de referência.
O Presidente da República recordou o "constante empenho no conhecimento e na valorização da literatura portuguesa" evidenciado ao longo da vida por João Bigotte Chorão.
Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ainda a "incansável curiosidade e poderosa capacidade reflexiva"; bem como a "riquíssima ensaística e a criativa crítica literária, que se debruçaram sobre autores dos séculos XIX e XX, com destaque para Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo ou João de Araújo Correia".
João Bigotte Chorão foi a sepultar nesta segunda-feira, 25 de Fevereiro, mas a sua memória permanecerá bem viva junto dos seus leitores e admiradores da boa literatura. Até sempre.
O prodígio de Almada Negreiros (1893-1970) está bem patente nesta pintura. Uma incomparável criatividade artistica. Atente-se ao vitral, seu traço, cor, brilho, mensagem ou mensagens por descodificar! Almada não dava ponto sem nó, não escrevia nem pintava sem provocação, deixava ao olhar dos outros a liberdade de interpretar.
Ironia por instinto... as gerações de hoje pouco conhecem a obra deste notável vulto da cultura portuguesa. Uma incultura que começa no ensino (do abc à universidade) e que se mantém intocável por quem tem a tutela do poder. O culto da ignorância é protegido por quem não consegue alcançar o estrado da sabedoria.
Uma cultura prisioneira, atada com todas as pontas, dos pés à cabeça, como parece nos querer dizer a figura que Almada Negreiros nos deixou para a posteridade.
Entrar numa livraria portuguesa no estrangeiro é, podem crer, como entrar numa livraria no nosso país. Ali é Portugal, escrito em português. Até para aqueles que não têm hábitos de leitura nem adquirem livros dá-se um sentimento de “nosso”, edições nossas, autores portugueses, é nossa a língua, esboça-se alguma emoção.

Em janeiro, estivemos na inauguração da “La petite portugaise”, situada em Chaussée de Wavre, em Bruxelas. Como diz o título: “pequena” mas onde cabem todos e onde se pode adquirir todos os livros. Se o livro não está disponível manda-se buscar. Jornais, revistas, cd´s, também ali podem estar, e isso nos enche de orgulho.
Bruxelas tem inúmeras livrarias, bibliotecários e, inclusive, a primeira cidade do livro da Europa, em REDU (pequena vila belga), no género do que temos, hoje, em Óbidos. Só que em REDU vamos encontrar casas que são ou livrarias, ou tipografias, fábricas de papel, impressoras, litografias, ou seja, tudo o que entra na produção técnica do livro.

Na nossa “La petite portugaise“, encontramos à entrada o convite para “Um café com Fernando Pessoa”, uma forma de identificação cultural. Quem não o conhece? Desejamos os maiores êxitos aos investidores. Um património bem português que merece todo o nosso apoio bem como da comunidade portuguesa na Bélgica.
Contrariando a propaganda salazarista e certos discursos historicistas atuais, este livro explica o fracasso da I República portuguesa no contexto europeu em que o Portugal de 1910 a 1926 se inseria.

O livro será apresentado no dia 26 de fevereiro (terça-feira), pelas 16.30 horas, no Museu do Aljube, em Lisboa.

Fado é fado, em liberdade e sem palcos obrigatórios. A censura ao fado, durante o Estado Novo, era vista como uma anormalidade, como se a letra ou a poesia pudessem constituir-se em oposição ao poder. E a prova é que a revolução de 25 de Abril de 1974, que leva ao derrube do regime, faz-se com canções de intervenção, a começar pela imortal "Grândola Vila Morena". Haja fado, em liberdade, porque em nada ofende.
Fomos ao Museu do Fado, em Alfama (Lisboa) e logo à chegada apercebemo-nos que o Fado não é de museu, não é de nenhum lugar específio, tal como a canção, música, bailado, e tantas outras manifestações genuínas que brotam de forma espontânea. O fado começou por ser uma canção dos vencidos até que veio a passar para canção dos vencedores.

Não há uma data certa para o aparecimento do fado, cita-se finais do século XIX, da sua origem também não há certezas, a única referência substantiva é que começou a ser cantado pelas ruas, becos e vielas de Alfama, cantadeiras de classes sociais baixas, copos, noitadas e guitarradas, boémia à solta, uma vida criticada pelas classes nobres de Lisboa.
O Museu do Fado promove mas não consegue expressar a canção no seu todo. Mesmo quando se puxa os galões de Património Imaterial da Humanidade, galardão atribuído pela UNESCO, em 2011. A primeira guitarra portuguesa data de 1890. O primeiro filme português sobre o fado foi “A Severa”, com Amália Rodrigues e Virgílio Teixeira. Por via do fado, Amália Rodrigues, a maior fadista de todos os tempos, foi a primeira mulher a ganhar honras no Panteão Nacional.

O fado é português (…), nasceu na pobreza e hoje vive emancipado, tem fama internacional tal como o Flamengo espanhol e o Tango argentino. Fado é Fado, palavra a palavra, a que se juntam os acordes da guitarra, da viola e do piano, bem como com outros instrumentos. Ver fado pelo espaço de um museu é muito redutor. O fado não é canção de museu!

Arnaldo Matos, líder e fundador do PCTP/MRPP, natural da Madeira, faleceu, ontem, aos 79 anos. Foi um dos mais carismáticos e activistas políticos portugueses no período revolucionário, pós 25 de abril de 1974. Foi preso, em 18 de fevereiro de 1975, pelo COPCON, mas poucos dias após foi libertado por “imposição” de manifestações populares em Lisboa.
Foi um líder que mobilizava jovens operários e estudantes, uma então “escola de massas”, entre os quais Durão Barroso (que saiu para o PSD), Ana Gomes e José Lamego (ambos para o PS), entre muitos outros que andaram e andam pela ribalta da política depois de terem estado na “cartilha” do PCTP/MRPP, fundado em 1970, na clandestinidade.
Arnaldo de Matos, advogado, vivia em Lisboa. Era irmão de Danilo Matos, casado com Violante Matos, filha única de José Saramago, nobel da literatura.
Discurso de Arnaldo Matos, líder MRPP, em 17 de maio de 1980. Durão Barroso está na primeira fila (em baixo, à esquerda). (foto in O Jornal).
A igreja de N. Sr.ª de Fátima, em Lisboa, bem pode ser considerada a “Igreja dos Vitrais” tal a soberba vidraça colorida que abrange grande parte do seu espaço interno. Uma luminosidade fascinante valorizada pela criativa pintural de Almada Negreiros, um dos principais vultos da cultura portuguesa do século XX.
Esta igreja dedicada a N. Sr.ª de Fátima, em Lisboa, inaugurada em outubro de 1938, foi a primeira a ser construída fora de Ourém, onde esta sediado o Santuário de Fátima, desde 1919. Este templo surge por iniciativa do cardeal Manuel Cerejeira que, desde início, propôs uma construção fora dos estilos românico, gótico ou barroco, fazendo apelo à criatividade dos autores do projeto. Uma “Domus Dei et Porta Coeli”, de expressão modernista.

Um templo “revolucionário” para a época, que gerou alguma controvérsia, maior a ousadia quando Almada Negreiros e outros autores que estiveram envolvidos no projeto serem agnósticos e terem alguma antipatia para com o então regime do Estado Novo, liderado por Salazar. Dizem as crónicas da época que foi uma vitória do cardeal, da igreja, sobre a política.


Quem disse que "burro velho não aprende línguas" está enganado e foi ultrapassado pela realidade do nosso tempo. É que, segundo os entendidos, não há limites para aprender seja o que for, ainda mais quando há exemplos de pessoas com uma respeitável idade que contrariam as previsões menos optimistas, como é o caso de Setsuko Takamizawa, uma japonesa de 90 anos, que está a estudar inglês para ser intérprete nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.
Como diz o poeta, "o sonho comanda a vida" e esta senhora, já distinguida pela BBC como uma das mulheres do ano em 2018, continua a aprender.
Agora, o seu propósito é estar nos Jogos Olímpicos como tradutora. "Gostava de dar as boas-vindas aos muitos estrangeiros que virão durante os Jogos Olímpicos e, por exemplo, indicar-lhes o caminho para o comboio”, conta a anciã, que começou a estudar inglês em Janeiro de 2018. 
Ainda assim, apesar dos rápidos progressos, a nonagenária admite que é “muito difícil” fazer avanços devido à sua idade: “Como tenho 90 anos, quando aprendo uma coisa, esqueço outra”.
“Os Jogos Olímpicos são um grande evento e um símbolo da paz, por isso é que sinto tanta paixão”, conta Takamizawa, que gostaria de poder comunicar com pessoas de todos o mundo.
A pouco mais de um ano de um dos maiores acontecimentos desportivos a nível mundial, o Japão prepara-se para receber, com o melhor “omotenashi” - termo para denominar a conhecida hospitalidade japonesa -, milhares de turistas.
“Falarei com os estrangeiros que estejam perdidos ou que tenham algum problema”, promete esta avó japonesa.
Lisboa tem 142 Lojas com História, mais 18 desde o final do ano passado, com a freguesia de Santa Maria Maior a concentrar o maior número de estabelecimentos históricos, desde que a distinção foi instituída pela Câmara Municipal de Lisboa, em 2016.
A admiração e o interesse pela manutenção destas Lojas têm vindo a crescer, e há propostas para todos os gostos, com imensa variedade de ofertas. No mais recente grupo destas Lojas destaca-se o número das retrosarias, todas situadas na rua da Conceição, também conhecida como "rua dos retroseiros".

Existem ainda duas livrarias, entre as quais a Livraria Bertrand do Chiado, que reclama o título de livraria mais antiga do mundo reconhecida pelo livro Guinness dos recordes, duas barbearias, dois antiquários, duas lojas de vestuário, dois restaurantes, uma loja de discos, uma loja de ferragens, um encadernador e um bar.
O emblemático Xafarix, do músico Luís Represas. e, em Alvalade, mantém-se a Loja Mariazinha, “casa especialista de cafés, chás e farinhas”, que conseguiu adaptar-se às mudanças desde que há 61 anos está na avenida Rio de Janeiro, sobrevivendo à "febre" das máquinas de café com cápsula, apostando noutros produtos, e beneficiando também de mudanças de hábitos alimentares, como a procura dos frutos secos.
Entra, hoje, na Assembleia da República, para discussão e votação, uma moção de censura ao governo para dizer nada, ou seja, para cair em saco roto. O CDS leva ao Parlamento uma moção de desconfiança ao governo quando sabe que é chumbada pela maioria dos deputados. Uma censura censurável.
A isto dizemos que é “brincar à política”. E como se não bastasse a enfadonha iniciativa do CDS, vem o PSD votar a favor mesmo sabendo que “não tem efeito prático nenhum”, como reconhece Rui Rio, líder do PSD. Mas então é assim... vota-se para a auto derrota, para nada? Que trabalho (bem pago) é este? Onde está a produtividade e o custo de tudo isto? É esta a mentalidade dos deputados social- democratas e dos centristas. Por favor, haja decoro!
Cenas censuráveis do quotidiano parlamentar.
Uma moção de censura é para levar a sério. Bem dizem os cidadãos de Cuba e da Coreia do Norte (sistemas ditatoriais censuráveis) quando dizem que a democracia está cheia de fantasmas, fantasias e de medos, é um ninho de contradições. “Vocês no ocidente têm a liberdade de escolher os seus governantes. Acham bem. Mas o que é estranho é vocês, pouco tempo depois, atirarem-se contra quem vocês escolherem para vos governar”, observa jovem coreano.
A ditadura é ditadura, sentido único. A democracia tem todas as portas abertas. Na democracia a oposição ao governo começa logo nas horas seguintes às eleições, trabalha-se para deitar abaixo o governo, armadilhar caminhos, sem olhar a meios. Tem sido assim em Portugal e noutros países. "Uma democracia atrapalhada". no dizer de Churchill.

O que se destinava a ser um simples estudo sobre a cozinha e a gastronomia da Inglaterra ou Reino Unido, da autoria do célebre escritor George Orwell (1903-1950), tornou-se num caso sério a ponto de merecer um pedido de desculpas da parte de quem encomendou o estudo - o British Council, pelo texto não ter sido publicado na altura devida, em 1946.
Agora, mais de 70 anos depois, aquela instituição não só pede desculpa pelo sucedido e publica também o ensaio completo. O motivo para a publicação ter sido cancelada, dizem os responsáveis, foi por medo de ser mal recebida em plena austeridade do pós-guerra, ou seja, num momento em que a Europa continental vivia um racionamento alimentar, na sequência da II Guerra Mundial.
A revelação foi feita após a recente descoberta de uma carta nos arquivos do British Council - instituição pública responsável por promover a língua e a cultura inglesas a nível internacional, que demonstra que o ensaio, escrito pelo autor de clássicos da literatura como “1984” e “Triunfo dos Porcos”, acabou por ser rejeitado.
No ensaio, George Orwell escreve sobre a gastronomia britânica com o seu estilo característico, descrevendo-a como “simples, algo pesada, talvez ligeiramente bárbara”, considerando que a sua grande virtude advém da “excelência da matéria-prima local, e do seu foco principal no açúcar e nas gorduras animais”.
Descreve ainda a dieta britânica como sendo a de um “país nórdico e chuvoso”, onde “a manteiga é abundante e os óleos vegetais escassos”, onde “todas as especiarias e algumas das ervas mais fortes são produtos exóticos” para um povo que “prefere coisas doces a coisas condimentadas e que combina açúcar com carne de uma forma raramente vista noutros sítios”.
O escritor recorda ainda as “formas especificamente britânicas de cozinhar batatas” e admite que, fora este tubérculo, os vegetais “raramente recebem o tratamento devido” de um povo que “não é um grande apreciador de saladas”.
Apesar das críticas, Orwell defende que ninguém pode “dar uma apreciação justa à cozinha britânica” sem ter provado pratos e iguarias típicas como queijo Stilton, crumpets (espécie de biscoitos), bolos de açafrão, pudins de carne e rins ou rosbife com pudim do Yorkshire, batatas assadas e molho de rábano silvestre.
Sendo um território onde “bebidas quentes são aceitáveis na maior parte do dia”, o autor critica também o café britânico, que é "quase sempre mau", mas elogia o chá: apesar de a "maioria das pessoas" beber frequentemente café, "não têm interesse" nele e "não sabem distinguir bom de mau café”. Já quanto ao chá, “toda a gente tem a sua marca favorita e a sua teoria de estimação de como é que deve ser preparado”.
Lembra que, para os britânicos, o pequeno-almoço “não é um snack, mas sim uma refeição séria”, constituída por três pratos, o escritor refere a presença da marmelada de laranja como algo que surge sempre de manhã, sendo que “outros tipos de geleia raramente são comidos ao pequeno-almoço, e a marmelada não surge com frequência noutras alturas do dia”.

Portugal encontra-se entre os países com os mais baixos salários da União Europeia mas é também dos países a registar, ano após ano, um crescente número de ricos. Indicam relatórios internacionais que o nível médio salarial em Portugal está muito aquém da média europeia.
Na última década, o Estado português injectou nos bancos cerca de 70 mil milhões de euros. Até 2015, a Caixa Geral de Depósitos registava perdas acima dos mil milhões de euros. Só com os bancos: BES, BPP, BPN e BANIF, o Estado “perdeu” mais de 18 mil milhões de euros, para alem dos custos suportados com o BCP, Montepio e Banco Novo.
Para se ter uma referência sobre o que se passa no mundo “entre riqueza e pobreza as fortunas dos milionários aumentaram 12,5 % no ano passado – ou 2,5 mil milhões de dólares por dia -, a metade mais pobre (3,8 mil milhões de pessoas) viu o seu rendimento cair 11%”. Ou, por outras palavras, em 2018, os 26 mais ricos do mundo tinham em seu poder tantos recursos como os 3,8 mil milhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da população mundial".
A desigualdade é tão gritante e aviltante que “quase metade da população mundial vive com menos de 5,5 dólares por dia ou 4,83 euros”.
lançar as redes nesta Ilha do Mar
A sociedade e as comunidades nacionais atuais estão bastante fragmentadas. Proliferam e multiplicam-se vagas de tribos atuais quando se esperaria encontrar sociedades organizadas para o bem comum e a solidariedade. Abundam cabecilhas que não cessam de se constituírem chefezinhos autoritários a levantar a voz e impor as suas crenças de tribo.
Será que a sociedade de cidadãos se está a quebrar em mil pedaços e a ficar reduzida a pequenas ditaduras individualistas?
Debatem-se inúmeras visões de como deve ser a sociedade, mas não se acerta muito. Os antropólogos e sociólogos têm amplo campo de análise das diferenças ente as tribos primitivas e as atuais, entre estas e a macro-sociedade organizada de cidadãos civilizados.

Inúmeras parcelas da sociedade se desintegram e assumem comportamentos emocionais, agressivos e destrutivos de tribos primitivas. Estão aí as cenas de divisões nos partidos políticos, nacionais, europeus e internacionais, nos clubes de futebol, blocos, uniões e federações, nas espiritualidades, Igrejas e religiões.
Atingem questões banais ou fraturantes, casamentos gays, género, etc. Estão presentes nas fações da UE, nas polémicas do Brexit (Clara Ferreira Alves) e dos Estados Unidos, nos sindicatos e grupos profissionais.
O mito bíblico de Babel (Gen 11, 1-9) parece descrever os dois aspetos deste novo tribalismo atual: domínio de sofisticada tecnologia, construção de torres do homem-deus para invadir o céu e se pôr no lugar de Deus; desagregação desentendida e abandono da procura do bem comum da humanidade. Esta proliferação tribal tem um aliado nas redes sociais e nos seus geniais utilizadores: criam e manipulam sempre mais tribos e caciques.
Degeneram em micro-bombas atómicas a estilhaçar a família e toda a espécie de organização de grupos humanos e nações. Lançam vozes e palavras pouco humanas, badalam de forma ensurdecedora sons de irracionalidade emocional, agressiva e homicida nas sociedades alargadas em formação. Alguns iludem-se que podem construir casas com calhaus soltos sem os unir fortemente uns aos outros com o cimento do amor e não com betume tóxico da torre de Babel.

Só com unificações sucessivas a vida se desenvolve: átomos em células, células em moléculas, estas em órgãos, homens e mulheres em famílias e comunidades humanas. Felizmente, no meio deste desconcerto ainda se ouvem palavras humanizadas, sábias, de sentido eterno, dirigidas a toda a Humanidade, diferentes de sons desafinados sem solidariedade universal.
Nem tudo se reduz a questiúnculas de partidos, clubes de elites desavindas e frustradas, seitas e capelinhas de likes e fake news, guerrazinhas e jogos de euforia/depressão e negativismos de muitos umbigos do mundo, egos juxta-postos e cancerosos. Haverá líderes do bem comum, e da Palavra de sociedade fraterna com Pai?
Graças a Deus, alguns, e não apenas o Papa Francisco. E líderes à altura da missão de aglutinar a cidade dos homens? Alguns também, a propor que a sociedade de todos os homens se articule e agregue à cidade de Deus. Utilizam palavras de sentido que superam o tempo e o espaço, vindas da Sabedoria de antes dos tempos; palavras imortais para além deste cenário da vida.
Nem tudo vai cada vez pior. Afirmá-lo é esquecer e ocultar a realidade permanente da Árvore da qual brotam continuamente novos ramos, vida renovada, sempre a nascer e crescer.
Teimam, porém, outros em fazer crer que já secou e que agora é que a Igreja global acaba de vez. Para uns a vida só serve para se tornar rico, e para reduzir os outros a escravos condenados a desaparecer por nem para enriquecer prestarem.

Para que serviriam os falhados? Estorvam os da vida farta, os homens-deus, diria Fulton Sheen, que terá profetizado este tempo, em 1947. Contudo mais de dois biliões de pessoas continuam a crer que a vida tira todo o sentido do Deus-homem, não do homem-deus. Será que a mudança de bispo da já diocese global do Funchal terá alguma relação com esta fragmentação tribal?
A questão é atrevida. Contudo, ambos os Bispos vieram da parte da Palavra (Jesus) e do Papa, líder de palavras que não são dele. O Bispo cessante tirou o seu lema da “Palavra” eterna que disse: “Faz-te ao largo” (Lc 5, 1-11) na diocese que se fez ao Mar até ao fim do Globo terrestre; e o Bispo que entra escolheu a palavra da confiança em Quem dá a ordem: “na tua Palavra” vou fazer-me ao largo e lançar as redes nesta Ilha do Mar imenso em cujas orlas dois biliões de cristãos Te seguem e confiam na Tua palavra.
> Aires Gameiro, Funchal, fevereiro de 2019
Tenho a missão de evangelizar
“Venho sem preconceitos”, com o desejo de “conhecer a ilha e as pessoas” e com “uma dupla tarefa – como nos aponta o Papa Francisco: construir comunidade cristã e evangelizar", começou por dizer D. Nuno Brás, novo Bispo do Funchal, à sua chegada Madeira (sexta-feira, 15 de fevereiro).
D. Nuno Brás (à esquerda) com D. António Carrilho, ex-Bispo da Diocese do Funchal, no momento da chegada à Madeira.
Em declarações aos jornalistas, no aeroporto, D. Nuno Brás afirmou que: "Não sou político, nem gestor de empresa. Sou Bispo. Tenho a missão de evangelizar, celebrar os sacramentos, conduzir o povo de Deus como Bom Pastor”. E acrescentou:
“Para desempenhar este cargo, é óbvio que é importante o diálogo com todas as diferentes instituições que constituem a sociedade da Madeira e Porto Santo: regionais, autárquicas, culturais. O diálogo e o respeito mútuo no exercício das diversas funções serão o método para esta colaboração”.

Deixou ainda “uma palavra para a comunicação social que desempenha um papel tão central na vida dos madeirenses. Podeis contar comigo em tudo o que for verdadeira comunicação de serviço aos madeirenses”.
D. Nuno Brás, 56 anos de idade, natural do Vimeiro (Lourinhã), foi acolhido no aeroporto internacional Cristiano Ronaldo pelos seus antecessores, D. António Carrilho e D. Teodoro de Faria; pelo presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz e por um grupo de crianças do Externato São Francisco de Sales de Gaula, que entoaram cânticos de saudação.
O 33.º Bispo do Funchal toma posse da Diocese no dia de amanhã, (domingo), 17 de fevereiro, com uma concelebração na Sé, às 16 horas, onde deverão participar cerca de 20 Bispos, com destaque para o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e o representante do Papa em Portugal, o núncio apostólico D. Rino Passigato.



Ericeira: A informação está lá, em placas cinzentas com letras a preto, "Reserva Mundial de Surf, a primeira reserva de surf da Europa". Um canto de mar com multiculturalidade. Aqui vive-se em plena cidadania, em várias línguas e nacionalidades, durante todo o ano. A praia de areia desafia a umas braçadas na água salgada.
Estamos no Inverno mas é como se estivéssemos no Verão, faz sol e a brisa soprando do mar para terra é reconfortante. Ontem, o termómetro registava 19 graus. Como se por ali andasse, a mensagem de Fernando Pessoa não passa despercebida. Imaginação não tem limites. Portugal é um oásis numa velha Europa sombria, no eixo centro-norte, onde a natureza vale saudavelmente milhões!
PS: As fotos, um tanto ou no seu todo desenquadradas, mostram o espaço e a localidade inconfundíveis.

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS