Focar no positivo da vida
Comemora-se, amanhã, 1 de outubro, o dia internacional do idoso, evento que é um estímulo para falar deles e de modos de lhes tornar o envelhecimento mais ativo e realizador para prevenir e reduzir as limitações da idade avançada. As técnicas e metodologias são úteis, mas não dispensam o relacionamento e convívio diário com eles.
Os manuais dizem que os idosos começam por esquecer os factos recentes e manter os mais remotos da sua vida; e algumas investigações indicam que as canções resistem mais ao esquecimento.

Este fato poderá ajudar no relacionamento com eles. Por um lado, os idosos, para manterem uma certa autonomia, precisam de funcionar com a memória dos dados atuais relativos ao espaço, tempo, atividades e pessoas que os rodeiam no dia-a-dia. Por outro lado, se os cuidadores insistem só nesses dados, na espectativa de treinar os hábitos diários e a memória para conseguir que o idoso funcione melhor, a técnica pode ocasionar um efeito secundário negativo.
Não é raro encontrar idosos infelizes porque à volta deles se teima em os pressionar a falar apenas das realidades do presente. Na verdade os idosos, tal como os jovens e as crianças gostam de falar da sua vida, presente, passada e dos sonhos e projetos do futuro.
Pressioná-los a falar só do presente ou do futuro pode aumentar os seus estados ansiosos e depressivos. Corre-se o risco de aumentar o seu sofrimento quando se persiste nessa orientação.

Para estimular a sua memória e contentamento precisam de pessoas à sua volta que conheçam os dados da sua vida, os períodos de maior sucesso, para ouvirem a falar dessas realidades e manterem com eles um relacionamento que estimule a sua memória, e, mais que isso, lhes faça reviver as experiências de sucesso, alegria e contentamento.
Ainda recentemente os cuidadores de um idoso muito esquecido se surpreenderam quando, ao recordar-lhe os nomes dos filhos, a terra e casa que construiu e outros dados da sua vida, ouviram palavras de resposta e observaram expressões de sorriso que outros já não esperavam. Os idosos precisam de ser estimulados em relação ao presente e ao passado.
Nos cursos de pedagogia repete-se que para ensinar o Zezinho não basta conhecer bem a disciplina a ensinar; é preciso conhecer também o Zezinho. Isto mesmo se pode aplicar ao cuidador de idosos; não basta conhecer bem e aplicar as técnicas; é preciso conhecer o idoso, e principalmente, as suas experiências agradáveis devidas aos sucessos nas fases mais produtivas da sua vida.

Vigora agora a tentação exagerada de proteção de dados pessoais para evitar contratempos, mas, levada ao extremo, pode também desumanizar mais a vida dos assistidos. Por vezes, com ela, afloram práticas de maior estigmatização de pessoas já tão estigmatizadas.
Não é humano privar o idoso do seu nome, dos nomes dos seus familiares; nem privá-lo do seu rosto, dos nomes dos seus familiares e das estórias do seu passado. O tabú que se está a gerar tem a ver com o medo e vergonha da doença, da limitação e da morte.
Se os que giram à volta dele e os amigos que o visitam não lhes podem lembrar as realidades agradáveis da sua história e só se limitam a lamentá-los, tornam-nos cada vez mais infelizes. E como poderão lembrar sem usar os meios que se usam para os cuidadores: ter os nomes e fotos expostos para eles não esquecerem e para quem lida e fala com eles os usar com frequência sem hesitações.

Os idosos, de memória muito limitada, precisam que os cuidadores em funções de ajuda, profissionais ou os familiares e visitantes amigos lhes recordem o nome e realidades agradáveis do seu passado. O sentimento de identidade positiva destes idosos precisa de ser reforçada dezenas de vezes ao dia pelos que se relacionam com eles sob pena de o relacionamento não ser humanizado e de lhes aumentar o sofrimento. Não se irá pensar que há vidas de pessoas que não têm nada de positivo a recordar.
A capacidade de focar no positivo da vida de cada idoso é desafio a que os cuidadores são convidados a responder, sempre e apesar de muitas limitações de alguns deles. Não será também para isto que foi instituído o dia internacional do idoso?
> Aires Gameiro, setembro de 2018
A perturbadora "informação empacotada"
Um título inquietante e perturbador - A Ordem do Dia - livro do escritor e cineasta francês Éric Vuillard, deveria ser de leitura obrigatória para quem deseje compreender melhor os meandros dos relacionamentos e compromissos entre os políticos/candidatos ao poder e os poderosos da sociedade, vulgo detentores da "massa financeira" que tanta influência tem sobre os destinos dos povos.
O seu conteúdo é uma descrição sobre as "cumplicidades" que, entre outras razões, ditaram o início da II Guerra Mundial (1939-1945), nomeadamente a responsabilidade dos empresários da Alemanha na subida do ditador Hitler ao poder governativo, a ascensão do nazismo e o seu domínio na Europa.

Em síntese: "A 20 de Fevereiro de 1933, um dia comum em Berlim, teve lugar no Reichstag uma reunião secreta na qual os industriais alemães — entre os quais se contavam os donos da Opel, Krupp, Siemens, IG Farben, Bayer, Allianz, Telefunken, Agfa, BASF e Varta — doaram enormes quantias a Hitler para conseguir a estabilidade que ele prometia.
A partir desse ano, Hitler preparou uma estratégia para a comunidade internacional para anexar «pacificamente» a Áustria; para isso, enquanto procurava o consentimento ou o silêncio dos primeiros-ministros europeus, manteve uma guerra psicológica com Schuschnigg, o chanceler austríaco, até que a invasão foi um facto..." . Ou seja, nesta obra revelam-se os bastidores, os negócios e os interesses que tornaram possível a Grande Guerra, com as consequências que todos conhecemos.
Éric Vuillard é um autor premiado, destacando-se o Prémio Goncourt 2017 atribuido precisamente a este livro A Ordem do Dia, agora publicado em Portugal.

Já agora, ainda a propósito da ascensão do nazismo, recordamos que passam 80 anos sobre a "Noite dos Cristais", isto é, o episódio que "justificou" a perseguição desenfreada aos judeus... Foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938, em toda a Alemanha e Áustria, marcada pela destruição de símbolos judaicos; Sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e os seus pertences destruídos. Esta noite marcou o início do Holocausto, que causou a morte a seis milhões de judeus na Europa até o final da Segunda Guerra Mundial.
Como alertou o saudoso Edward W.Said (1935-2003), escritor e ensaísta de origem palestiniana, há que estar sempre atento a tudo quanto se passa à nossa volta, porque: "A consciência individual, no nosso tempo, é anulada por uma quantidade enorme de informação empacotada, cujo objectivo é produzir uma passividade colectiva, aquiescente e inquestionada"; e livros como A Ordem do Dia ajuda-nos a despertar para a realidade.
Entre 16 de maio de 1974 e 3 de janeiro de 1980 existiu em Portugal um Ministério da Comunicação Social (MCS). Um órgão do estado democrático com estatutos e legislação cujo poder tinha como primeira figura o governo. Uma espécie de uma empresa jornalística que tem estatutos próprios a determinar a linha editorial (ponto e vírgula).
Para sermos mais objectivos: a igreja católica em Portugal detém, entre outros títulos de menor expressão pública, a RR (Rádio Renascença) e a Agência Ecclesia, dois órgãos de inspiração cristã. A programação, produção e noticiários obedecem às directrizes ditadas pela igreja católica.
O Ministério da Comunicação Social tinha a tutela da imprensa, rádio e tv (na altura, apenas a RTP e a EN (emissora nacional/rádio), garantindo a tão propalada liberdade de expressão como determinando linhas de orientação. Este MCS praticamente não tem registo de memória (apagou-se?) mas teve um papel relevante sobre o (des)controlo da cobertura e divulgação noticiosa.

O MCS tinha um poder que não abdicava e que levou a que algumas forças políticas entrassem em conflito com o governo. Entre 1974 e 1980 foram registados, quiçá, o maior número de títulos de jornais e revistas em Portugal de que há memória. Muitos novos jornais, muitas falências de jornais e muitos jornais antigos desapareceram.
A história do Ministério da Comunicação Social ainda não foi feita e dificilmente sairá a público. Os telejornalavas, os biscates dos oportunistas tagatés bem como os chateadíssimos políticos tagarelas deitaram tudo a perder. O Ministério foi extinto e não deixou saudades, o que é mau. Ressuscitá-lo pode ser uma chatice, talvez seja melhor deixá-lo como está: adormecido!
Ideais do liberalismo
A 27 de Setembro de 1915, morreu o escritor e jornalista Ramalho Ortigão. Tinha 78 anos de idade e uma significativa actividade cultural no Portugal de Oitocentos. Fez parte da chamada "Geração de 70", onde pontificavam Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Batalha Reis, Almeida Garrett ...
Natural do Porto (n. em 1836), no seio de uma família nobre do Algarve, tradicionalista e de espírito conservador, perfilhou, no entanto, os ideais do liberalismo, na linha de Almeida Garrett e de Alexandre Herculano. Foi amigo e companheiro de letras de Eça de Queirós com quem redigiu durante dois anos, em fascículos mensais, "As Farpas" - análise crítica da política e da sociedade do seu tempo; e "O Mistério da Estrada de Sintra" (referência do aparecimento do romance policial em Portugal).
Admirador de Antero de Quental, interveio também na polémica "Questão Coimbrã" com um texto em defesa da "Literatura Hoje". Deixou registos pormenorizados das inúmeras viagens que fez no nosso país e pela Europa desenvolvida, de que são exemplos os livros: "As Praias de Portugal", "O Culto da Arte em Portugal", "A Holanda" e "John Bull", entre outros.

Além de escritor e jornalista, (José Duarte) Ramalho Ortigão desempenhou ainda o cargo de bibliotecário da Biblioteca da Ajuda e de oficial da secretaria da Academia Real das Ciências. Em 1901, foi agraciado com o titulo de académico de mérito da Academia Real de Belas Artes e, em 1907, foi nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública por parte da mesma Academia.
> Ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos actos que eles praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes» (Ramalho Ortigão).

Começa esta quinta-feira (27 de Setembro), a 4.ª edição do Festival Literário Internacional de Óbidos - "FOLIO". Um evento com repercussões internacionais que tem vindo a afirmar-se "como um dos principais acontecimentos dedicados à promoção do livro e da literatura".
O programa para hoje, disponibilizado em http://obidosvilaliteraria.com/,,é o seguinte:
16 horas - Inauguração do Folio com visita às exposições e diversos espaços do Festival.
19 horas - Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel
> Para comemorar os 20 anos da atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, Anabela Mota Ribeiro, escritora, e Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, juntam-se à Mesa. Os protagonistas da conversa são os três novos livros, de e sobre Saramago, a publicar neste outono: “Ultimo Caderno de Lanzarote”, de José Saramago; “Por Saramago”, de Anabela Mota Ribeiro; e “Um país criado em alegria”, de Ricardo Viel.
20 horas - Teatro: Somos Pessoa! As Contadeiras \\\ Largo de Santiago.
21 horas - Cinema: Homenagem a Eduardo Lourenço, seguida de exibição do documentário “Labirinto da Saudade”
com a presença do realizador Miguel Gonçalves Mendes.
22 horas - Concerto Inatel. Concerto de Abertura com Ricardo Ribeiro/Fado.

"Turismo e a transformação digital" é o tema do Dia Mundial do Turismo deste ano, que se assinala hoje, 27 de Setembro. Celebrado desde 1980, a efeméride em 2018 pretende realçar que: "Os avanços digitais estão a transformar a forma como nos ligamos e nos informamos, o nosso comportamento, e a incentivar a inovação e o aparecimento de estratégias de crescimento sustentáveis e responsáveis."
Diversas iniciativas e realizações estão agendadas para festejar esta data em todo o nosso país, com particular destaque para Lisboa e Porto e nas principais regiões turísticas, como a Madeira e o Algarve.
As celebrações oficiais do Dia Mundial do Turismo 2018 acontecem na Hungria, de acordo com decisão da 61ª reunião da Comissão da OMT (Organização Mundial de Turismo) para a Europa, que juntou mais de 30 países membros e afiliados da organização, em Chisinau, capital da Moldávia. Em 2019 esta comissão regional reúne-se na República Checa.
Dois novos volumes da colecção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, sob a direcção geral de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, já estão disponíveis aos leitores interessados nesta obra magna e inédita entre nós, composta por 30 livros e sobre a mais diversa temática.


Carlos Fiolhais José Euardo Franco
Os volumes agora publicados referem-se: aos Lusíadas de Luís de Camões, obra classificada como "Primeira epopeia", sob a coordenação de José Carlos Seabra Pereira e Martinho Soares; e à Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, "Primeira obra de aventura e contactos intercivilizacionais", sob a coordenação de Amélia Polónia e Rosa Capelão.
Duas obras de alcance obrigatório e imprescindível para quem preze a literatura portuguesa, em termos de releitura ou lidas pela primeira vez, com possibilidades de se conhecerem ao pormenor os contextos biográficos e históricos em que viveram e produziram os seus autores.
Recorde-se que estas Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, cuja publicação iniciou-se há um ano, já foram distinguidas (em Maio passado) com o Prémio José Mariano Gago de Divulgação Científica, da Sociedasde Portuguesa de Autores (SPA).

> Os 30 volumes da maior operação científica interdisciplinar da cultura portuguesa incluem obras representativas da medicina, da geografia, do direito, da física, da arquitetura, da química, da música, da engenharia, da botânica, da pedagogia e da arte de navegar, entre outras", sublinhou a SPA.
A colecção tem por objectivo fazer "um levantamento de textos fundamentais da língua e da cultura portuguesa, no sentido em que foram os primeiros escritos" sobre diversos ramos do conhecimento, ao longo de sete séculos.(Projecto editorial do Círculo dos Leitores)
Faz, hoje, 50 anos - 26 de Setembro de 1968 - que Marcelo Caetano foi nomeado presidente do Conselho de Ministros. Sucedia no cargo ao então "ditador" e principal artífice do "Estado Novo" António de Oliveira Salazar. A data não é assinalada, hoje em dia, mas em abono da verdade histórica deverá ser lembrada como uma primeira etapa de muitas mudanças levadas a efeito no nosso país, nas últimas três décadas do século XX, com apoios, contestações e tudo o mais que se prevê nestas circunstâncias.
Marcelo Caetano tinha então 62 anos (nascera em 1906) e era um prestigiado professor catedrático da Faculdade de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, e autor de importante legislação administrativa, entre outros conteúdos jurídicos; ficou como governante até 1974 e, no entanto, a sua acção deixou marcas em várias áreas da governação, a par das dissidências e oposições suscitadas na altura.

Marcelo Caetano já tinha servido o anterior regime - fora Ministro da Presidência entre 1952 e 1958, entre outros cargos de relevo, mas sempre praticou um certo distanciamento, tendo "personificado ao longo da década de 1960, dentro do Regime, uma atitude de dissidência em relação às políticas de Salazar", diz o historiador Rui Ramos no livro Marcelo Caetano - Tempos de Transição.
Nesta mesma obra, que recolhe depoimentos de várias personalidades ligadas ao anterior regime e investigadores em geral, António Reis (fundador do Partido Socialista e professor universitário) considera que faltou tempo a Caetano para levar por diante uma política que agradasse a todos, da direita mais conservadora aos liberais inovadores, além dos condicionalismos a nível internacional:
> É provável que a perda de poder de Marcelo Caetano se deva, não à sua suposta ruptura em relação ao salazarismo, como diriam os velhos salazaristas, nem ao seu 'falhanço' em democratizar, como argumentam os 'liberais', mas sobretudo à dificuldade em manter os equilíbrios políticos dentro do Regime numa época que, independentemente da vontade de quem governa, era mesmo de 'transição'.
Neste contexto, Reis lembra que: "Entre as décadas de 1950 e 1970, e Europa Ocidental passou por uma das maiores transformações económicas, sociais e culturais da sua História", e (...) "entre 1972 e 1973, essa grande mutação atingiu um ponto de crise".

Marcelo Caetano esteve preso, durante três semana, numa área restrita do Palácio de São Lourenço (Funchal), Chegou à Madeira a 26 de Abril de 1974 donde partiu para o Porto Santo a 20 de Maio e, neste mesmo dia, seguiu para o Brasil. Faleceu em 1980, no Rio de Janeiro.
No plano nacional, já toda a gente sabe o que aconteceu... a urgência em tomar certas decisões...a questão do Ultramar... Apesar de tudo, não se podem menosprezar aqueles tempos "marcelistas" que permitiram chegar ao "25 de Abril de 1974"... Como sublinha a famosa frase do filósofo espanhol Ortega e Gasset: "Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo, não me salvo a mim mesmo".
Como nascem os ditadores
Agora que a Venezuela continua na ordem do dia, por motivos bem conhecidos de todos os interessados em seguir as políticas económicas e políticas do mundo actual, é urgente ler um livro, há pouco editado em Portugal, da autoria de dois professores universitários de Harvad, intitulado "Como Morrem as Democracias".
É urgente perceber os porquês, as causas que estão ou estiveram no início dos acontecimentos, porque os resultados ou as consequências dramáticas no caso da Venezuela, por exemplo, estão à vista e motivam sérias preocupações da parte da diplomacia portuguesa e internacional, e da comunidade em geral.
Como foi possível chegar a esta situação? Quem ajudou à ascensão de demagogos/populistas ao poder, sem a experiência democrática de cargos, tornando-se a seguir ditadores?

Em relação à Venezuela, conforme a explicação dos especialistas dadas neste livro, tudo aconteceu devido a "alianças fatídicas" e de ambição desmedida, que "ajudam a explicar a ascensão de Hugo Chávez".
"A Venezuela orgulhava-se de ser a mais antiga democracia da América do Sul, existente desde 1958. Chávez, um oficial subalterno e líder de um golpe falhado que nunca detivera um cargo público, era um outsider político. Mas a sua ascensão ao poder recebeu um impulso crítico por parte de um consumado homem do aparelho: o ex-presidente Rafael Caldera, um dos fundadores da democracia venezuelana", inacreditável!

Então, há mais de trinta anos, dois partidos alternavam-se no poder: o Acção Democrática, de centro-esquerda, e o Partido Social Cristão, de centro-direita, de Caldera; e nos anos 70, a Venezuela era considerada uma "democracia-modelo"; a economia do país dependia (e depende) fortemente do petróleo; e na década de 80, devido a "recessões prolongadas", o "aumento da pobreza" e a "crise" a alastrar, generalizam-se os descontentamentos e os tumultos...
Mais tarde, em 1992, militares subalternos, liderados por Hugo Chávez, revoltam-se com o presidente Carlos Andrés Pérez, mas o golpe falhou... No entanto, ergue-se a figura do "herói popular" e prenuncia-se uma mudança nunca vista, através de eleições...
Neste cenário, ainda em 1992, "embora o ex-presidente Caldera fosse um veterano reconhecido", a sua "carreira política estava em declínio". Aos 76 anos de idade, ainda sonhava "voltar ao poder" e viu em Chávez "uma boia de salvação". Logo, os interesses para ambas as partes eram evidentes: para o "velho político" significava captar o "eleitorado anti-sistema"; e para o "revolucionário", obter a "credibilidade" política, sem mais provas...

E tudo decorreu às mil maravilhas, apesar de golpes e prisões pelo caminho, porque o principal estava garantido, ou seja, Caldera "abriu as portas" do poder a Chávez. "O sistema partidário desmoronou-se após a eleição de Caldera, em 1993, como independente anti-partidário, abrindo caminho a futuros intrusos. Cinco anos mais tarde, seria a vez de Chávez".
Nesta análise tão concreta, os autores de "Como Morrem as Democracias", não hesitam em comparar os demagogos de tão má memória: "Apesar das suas vastas diferenças, Hitler, Mussolini e Chávez seguiram até ao poder caminhos que partilham semelhanças surpreendentes.
Não só eram todos outsider com o dom de cativar a atenção do público, como cada um deles chegou ao poder porque os políticos do aparelho ignoraram os sinais de alerta e lhes entregaram o poder (Hitler e Mussolini) ou lhes abriram a porta (Chávez)".

Nesta obra, que se recomenda como leitura oportuna, também os seus autores explicam tudo sobre a democracia nos EUA e como foi possível o "fenómeno Trump"...
“Os chefes militares só admitiram Marcelo Caetano (como chefe do governo) na condição de este dar garantias de continuar a guerra em África”, in revista Domingo (CM), 23.09.2018. Imperiosa exigência das altas patentes militares, para que Marcelo Caetano pudesse tomar posse, a 28 de setembro de 1968.
Em frente:

É óbvio que algo de muito grave está a acontecer. Nos quartéis aparentemente não há inimigos. Em janeiro deste ano era noticiado que pelo menos 2.800 militares portugueses participariam em missões internacionais em 2018, com destaque para presenças no Afeganistão, Turquia, República Centro Africana, Mali e Somália.
O salário nestas missões é para muitos jovens um tanto tentador, por isso estão disponíveis para integrar qualquer missão. Não há mobilização obrigatória, como na guerra em África (antes de 1974), nem há terrorismo declarado. O pré vale a pena e uma missão de seis meses, depressa passa. Fazer várias missões é conseguir um bom pé –de-meia.
O jovem comando que apareceu morto, na sexta-feira, era natural da Madeira, tinha 23 anos, e pertencia ao Regimento dos Comandos, no quartel da Carregueira, em Sintra. Dias antes terá estado colocado numa lista para nova missão no âmbito da ONU mas, por motivos não conhecidos, foi retirado e colocado outro no seu lugar, quando eventualmente estaria apto para a missão. Apareceu morto, no quartel. Ponto final. Paz à sua alma!

O Papa Francisco está a visitar, neste-fim-de-semana, três Países Bálticos: a Lituânia, a Letónia e Estónia, para uma viagem que visa "homenagear quem sofreu por causa da fé".
O programa inclui uma passagem pela antiga sede do KGB em Vilnius, o Museu da Ocupação e Lutas pela Liberdade na Lituânia, e uma oração pelas Vítimas do Gueto, um memorial do Holocausto.
Os católicos na Lituânia representam 80% da população; na Letónia há uma maioria luterana e os católicos são 20%; na Estónia, 75% das pessoas afirmam-se como não-crentes, tendo a comunidade católica cerca de 5 mil pessoas.

À sua chegada a Vilnius (capital da Lituânia) e perante as autoridades oficias renidas no Palácio Presidencial, o Papa Francisco lembrou a identidade das três nações que estão a celebrar o centenário da sua independência e as pontes de diálogo e de solidariedade estabelecidas entre todos, apesar do grande sofrimento no passado.
Para o futuro, disse, e no caso da Lituânia, é preciso dar "especial atenção aos mais novos, que são, não apenas o futuro, mas o presente desta nação, se permanecerem unidos às raízes do povo. (...) A Lituânia, que eles sonham, joga-se na busca constante de promover as políticas que estimulem a participação ativa dos mais novos na sociedade. Isto será, sem dúvida, semente de esperança, pois levará a um dinamismo em que a «alma» deste povo continuará a gerar hospitalidade: hospitalidade para o estrangeiro, hospitalidade para os jovens, para os idosos, para o pobre, enfim hospitalidade para o futuro."



Festival de música numa pequena cidade holandesa. Tarde de domingo, dia de sol, há stands com sanduiches, bebidas e fruta. O espaço verde e rodeado de árvores tem capacidade para o triplo das pessoas que lá estão. Música clássica, sóbria, intemporal, do agrado das pessoas que parecem hipnotizadas pelos acordes musicais. A cada interregno ouvem-se vibrantes aplausos. A musicalidade a todos satisfaz.
Estamos a poucos quilómetros de Roterdão mas ao mesmo tempo longe das multidões citadinas, dos metálicos e dos coloquiais que manipulam a música e a tornam pimba sem definição própria. Sobre o verdejante relvado estão as violas, os violinos e os violoncelos, os instrumentos usados pelos músicos para a música tecnicamente perfeita.
E ficamos a comparar: Que diferença enorme entre os festivais de música no verão português, com "pimbas" a rodos, e os festivais no verão holandês? A começar pelos stands (e não barracas), pelos produtos à venda e pela urbanidade cultural. Não é somente a música clássica a fazer a diferença é também e sobretudo a educação e formação de quem toca e de quem ouve.
Não quero dizer que na Holanda não haja também festivais musicais de mediana qualidade, enfartados de bebidas alcoólicas e consumos indesejáveis. Na escolha, é desejável a qualidade, seja na Holanda ou em Portugal.
Ouvir as cordas da viola darem vida à música erudita é um sonho, mas ainda quando acompanhada pelos sons do violino e do violoncelo. Tal como em tudo, a música é também uma questão de educação.
A presença de judeus no território português ficou na História com enorme influência em vários campos do saber e, em particular, junto dos que detinham o poder de governar; para já não falar das dramáticas "perseguições" e "conversões" à força, culminando com a expulsão em massa durante o reinado de D.Manuel I.
Muitas personalidades de origem judia, e de cidadania portuguesa, também se destacaram e os seus nomes ou apelidos estão entre os mais notáveis que contribuiram para o nosso progresso científico e outros, por exemplo, os descendentes da família Bensaude.
No Funchal, há profundas marcas da vivência judaica, como atestam a construção de uma Sinagoga (edifício ainda de pé) na Rua do Carmo e de um cemitério na rua do Lazareto.

> Marck Athias
Em referência a importantes judeus "madeirenses", digamos assim, temos o famoso médico Marck Athias, nascido no Funchal em 1875 e falecido em Lisboa em 1946. Foi catedrático de Fisiologia da Universidade de Lisboa e ficaram célebres as suas investigações sobre o sistema nervoso e sobre o Cancro.
Outra personalidade de origem judia que pontificou nos meios funchalenses foi João Wetzler, comerciante de bordados e antiguidades, que chegou à Madeira como refugiado, fugindo às perseguições da II Grande Guerra, quando as tropas alemãs invandiram Praga, em 1939.
Não se conhecem muitos pormenores da sua identidade e fortuna, mas há testemunhos de quem com ele conviveu de perto e aprendeu dele o ofício de negociar "coisas antigas, belas e boas", como foi o caso de João Silvério Caires que foi empregado do sr. Wetzler, entre 1946 e 1949; e do seu motorista João Vasconcelos Júnior.

> Sinagoga do Funchal
O que fica da memória de João Wetzler é que ele soube "despertar o interesse e o gosto dos madeirenses por antiguidades que antes dele não existiam".
Quando faleceu, no Funchal, em Junho de 1966 (um dia após ter completado 70 anos de idade), na sua Quinta da Saudade, um jornal da capital madeirense descreveu-o como "importante comerciante e industrial nesta cidade e um dos mais afamados antiquários de toda a Península Ibérica".
Um mês após a sua morte, "333 peças de prata fina" e muitas outras "preciosidades" foram entregues ao Museu da Quinta das Cruzes, através da então Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, conforme deixara escrito no seu testamento. Uma exposição que continua patente ao público, na capital madeirense.





Há imagens e silêncios que impõem meditação no local e momento próprios. Olhámos e logo pensamos no significado do silêncio e da imagem que nos é dada a observar:
A escultura aos mortos da II guerra mundial está implícita a sua presença (para que nunca se esqueça); um bunker da grande guerra usado pelos alemães (nazis); caminhada de um jovem musicando, alheio ao que o rodeia e, por fim, um cargueiro no canal da mancha, entre a França e a Inglaterra.
São imagens que conhecemos de perto em percursos pelo mundo e que agora colocamos no radar do tempo, com poucas palavras.

Como não ver nesta imagem lunar uma “cara de mulher”? Lua... é nome feminino. Esteja em que fase estiver: Crescente, Cheia, Minguante ou Nova. Lá estão os olhos, as narinas, os lábios, o crânio, a maxila inferior e outros traços que nos levam à identificação do semblante de mulher. Outros mais relevos podem ser parecidos.
“A Lua é o único satélite natural da Terra e o quinto maior do Sistema Solar”, descrição científica. “A fase em que a Lua é mais vista a olho nu, durante o dia, é na fase do quarto-crescente, quando 50% da superfície dela está iluminada para quem olha a Terra”, como nitidamente se vê na imagem obtida pela fotógrafa Albertina Granja, em Portugal continental, ao final da tarde de ontem.
A Lua é um mistério que desperta no homem a curiosidade em conhecê-la. A 20 de junho de 1969, a nave Apollo 11, tripulada pelos astronautas americanos Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin, pousou no espaço lunar. Armstrong foi o primeiro homem a andar sobre o solo lunar. Um feito histórico que, no próximo ano, completa 50 anos.
Para 2020, está aprazada a primeira viagem turística à Lua, o felizardo é um japonês milionário. Outra descrição revela que “o interior da Lua é mais frio que o interior do Planeta Terra. A superfície deste satélite natural é seca, rochosa e bastante empoeirada”. No vídeo abaixo, criado pela NASA, podemos ver o muito que já é conhecido sobre o fascinante satélite.

Moedas romanas de prata da era a.Cristo
Um quinário (moeda romana de prata) datado do ano de 97 antes de Cristo foi encontrado durante escavações arqueológicas junto às ruínas de Conímbriga. A moeda com mais de 2.000 anos é conhecida também como “vitoriato”, por ter a imagem da deusa Vitória. “Está em muito bom estado de conservação e será integrada no espólio do Museu Portugal Romano em Sicó para que possa ser apreciada por todos”, confirmou a Câmara Municipal de Condeixa.
Esta foi a primeira vez que “uma equipa independente realizou escavações” na zona daquela cidade romana em ruínas, no âmbito das ações do Movimento para a Promoção da Candidatura de Conímbriga a Património Mundial junto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), “com a finalidade de virem a ser enriquecidas as coleções” do Museu Portugal Romano criado pela autarquia de Condeixa.

Conímbriga terá sido uma grande cidade romana antes da era de Cristo. Impressionante a sua configuração urbanística e sua imponente dimensão.

Intérpretes que a História não esquece
Diplomata, político do "Estado Novo" e escritor, Alberto Franco Nogueira (1918-1993) foi lembrado há poucos dias por ocasião do centenário do seu nascimento. Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, ingressou em 1941 na carreira diplomática. Foi cônsul-geral de Portugal em londres, chefe da delegação portuguesa à ONU, director-geral dos Negócios Estrangeiros e ministro dos Negócios Estrangeiros, entre 1961 e 1969.
Personalidade muito ligada ao regime da ditadura salazarista, esteve preso após a "Revolução do 25 de Abril" de 1974. Libertado, exilou-se em Londres, em 1975, tendo regressado a Portugal alguns anos depois. Produziu estudos históricos e escreve a biografia política de Salazar em seis volumes.

Para assinalar o centenario do nascimento, a família de Franco Nogueira fez doação do seu "espólio pessoal ao Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O imenso espólio inclui, entre outras coisas, cartas secretas do Estado Novo e um manuscrito de Salazar". Figura multifacetada, para além de diplomata e ministro, Franco Nogueira exerceu ainda actividades de professor, crítico literário e administrador de empresas.
Na lista dos notáveis para suceder a Salazar, há 50 anos, entre os quais se destacava Marcelo Caetano, incluia-se também Franco Nogueira. Hoje, é um político esquecido; todavia, as suas obras escritas baseiam-se num pensamento bem informado e formativo em termos de raciocínios adequados e face a contextos históricos bem precisos, sem que por isso nos deixemos influenciar por laivos de "fascismo" ou "ditadura".
Em cada época, há intérpretes que a História não pode apagar. Foi assim com Franco Nogueira e com tantos outros que merecem ser lembrados a seu tempo.
Depois da catástrofe que devorou o famoso museu do Rio de Janeiro estão a ser tomadas medidas de maior segurança nos museus brasileiros mas também nos portugueses. Depois da desgraça, trancas à porta.
O Museu de Arte Sacra do Funchal e os três museus municipais da capital madeirense dispõem de sistemas de prevenção contra incêndios, sendo que, no primeiro caso, a direção prepara-se para reformular o plano de emergência.

> O nosso plano de emergência, inserido no Plano da Conservação Preventiva, está demasiado datado e, como tal, estamos em vias de contratar um técnico para elaborar um novo", adianta o diretor do Museu de Arte Sacra, João Henrique Silva, sublinhando que o projeto será executado em articulação com o Serviço Regional de Proteção Civil.
"Este plano analisa uma série de itens e estabelece, ponto por ponto, o que deve ser feito em situação de incêndio ou catástrofe natural, quem deve ser chamado, onde se posicionam as pessoas, quais as portas de fuga e as saídas para os objetos em exposição", observa.
Numa altura em que prossegue o debate sobre as falhas na segurança no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no Brasil, destruído por um incêndio em 2 de setembro, João Henrique Silva considera que uma situação como aquela só ocorrerá no Museu de Arte Sacra por "falha geral do sistema".

> O museu [que é propriedade da Diocese do Funchal] tem um contrato com uma empresa de segurança e esse contrato desdobra-se em duas vertentes: segurança contra intrusão (furto) e segurança contra incêndios, o que significa que estão instalados detetores, que imediatamente acionam um alarme", afirma, realçando que todas as salas dispõem de extintores fiscalizados e carregados dentro do período legal.

Museu de Arte Sacra do Funchal




João Godim
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