Cecília Pestana
Universidade Sénior do Funchal
Preferências e Recordações:
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A descoberta de um oásis
Éramos 30 pessoas!...O ponto de partida para passar o 1.º de Julho foi a Igreja da Calheta onde foi celebrada uma missa, só para o grupo, pelas 10 horas. Alguém, até ao momento, meu desconhecido, antecipou-se para reservar um lugar no Paul da Serra que pudesse albergar os 3 grupos (Calheta 1, Funchal 25 e Calheta 5) com o fim de passar o dia em franca fraternidade e também fazer o "balance" do ano de trabalho, a nível das ENS.
Eis que surge o planalto, todo descoberto, pois o céu espelhado e azul contrastava com o verde matizado do campo , pleno de vegetação das mais variadas espécies. Surge o Oásis...Os carros pequenos ficaram na berma da estrada. Duas carrinhas romperam até lá onde já crepitava o lume e o cheiro a comida já se fazia sentir - não faltando o da espetada. Num ápice apareceram mesas recheadas de comida e bebida para todos os gostos...! Os sabores campestres misturaram-se aos citadinos e a harmonia era completa...No ar só se ouviam os risos estridentes, intercalados de silêncio para ouvir bem as anedotas dos entendidos na matéria. Facilmente as horas passaram e urgia regressar. A vontade de comer contrastava com a abundância de comida sobrante. Surge a ideia de um leilão. Que coisa mais interessante? Até ao momento desconhecia. Os pregões, em alta voz encontravam predicados para vender o seu produto. Tudo foi distribuído...Algumas receitas também foram trocadas.
A partida fez-se com a sensação de um dia muito feliz, a repetir por muitas mais vezes. Aquele Oásis, continua lá...à espera de quem o queira preencher. Recomendo-o a todos quantos queiram viver "um pedaço de Céu", pois mais… seria injusto pedir...
(1 de Julho de 2010)
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NOSSA SENHORA DE MIM
Pediram – me para falar de Maria e eu, que me esqueci do valor da humildade, disse que sim. Apesar de não ser especialista em assuntos marianos. Apesar de não saber mais do que toda a gente que esta noite se congregou na Igreja do Colégio para, em comunidade, pensar na figura de Nossa Senhora e no sentido da Mensagem que Ela veio trazer, em Fátima.
Sou apenas uma mulher que tem em Maria um modelo de vida, um colo de Mãe e uma companheira de peregrinação.
Vou, portanto, por aí: por mim, pela forma como Nossa Senhora entrou na minha história e participa das minhas coisas. Porque essa Senhora que é nossa, é minha também.
Ela existe na minha vida desde que me lembro de mim. Foi-me trazida pela mão da minha mãe, pela sua voz de abraço, pelo amor que ela deixava escondido na minha cama, para que eu não tivesse medo da noite.
Associo-A, portanto, a um dos melhores momentos da minha infância, àquele momento em que a minha mãe era só minha, se sentava ao meu lado e me contava uma história. Depois de uma oração pequenina para agradecer o dia, rezávamos uma ave-maria, devagar, as minhas mãos nas mãos da minha mãe e, depois, um beijo. Aquele beijo que só as mães sabem dar e que cura todos os arranhões, que perdoa todas as tropelias, que afasta todos os males. E, se é verdade que, nos dias de maior traquinice, o “Rogai por nós, pecadores” ganhava outro sentido, é verdade também que, sobretudo nesses dias, a “Santa Maria, Mãe de Deus” dava outro sentido ao beijo da minha mãe.
Aprendi-A assim: amorosa. Entendi-A assim: pedindo por mim, mesmo que fosse fraca, mesmo que eu errasse. Senti-A assim: presente no “ agora e na hora da nossa morte”.
Deixei que Ela ficasse. Às vezes, fui eu que me fui embora. Mas Ela foi sempre à minha procura.
Maria esteve comigo, mesmo quando eu tive dúvidas e achei que precisava de respostas. Esteve comigo nos momentos da alegria e nos das lágrimas. Esteve comigo nos momentos das decisões e na hora de todas as escolhas.
Apesar de ter tentado fugir, e eu tentei algumas vezes, Maria foi sempre um lugar seguro. Sempre. Ela era sempre o beijo da minha mãe. Um colo. A Nossa Senhora de mim.
Há várias características no retrato desta mulher que me fascinam e que estão sempre por detrás das palavras que tenho dito e escrito acerca dela:
- a aceitação da vontade de Deus;
- o silêncio;
- a capacidade de se pôr a caminho para ir ao encontro;
-a promoção do encontro da humanidade com o seu Filho;
- a sua atitude no momento da cruz.
Naquele dia branco da Anunciação, em que o Anjo se aproximou com o Recado de Deus, Maria disse que Sim. Na entrega daquele Faça-se!, a sua vida mudou, a nossa vida mudou e Ela permitiu que o Plano que Deus tinha para a humanidade se concretizasse. Naquele dia, os projectos desta mulher deram lugar ao Projecto de Deus. Ela era “a Serva do Senhor”. Apesar de tudo. Naquele dia do anjo, nem lhe pediu um sinal. Só lhe perguntou o como, para não errar. Queria obedecer com amor.
Essa entrega é um dos aspectos que me apaixonam em Maria, esse atirar-se no abismo que é o colo de Deus, mas que é também a consciência da fonte de sofrimentos, consubstanciada na frase de Simeão, aquando da apresentação do Menino no Templo: “Uma espada trespassará a tua alma!”
E desculpem-me os pais e os santos, mas só as mães são capazes disto.
Depois, é o silêncio, esse silêncio líquido de Maria: um filho gerado na solidão, sem um lamento (“E o Anjo deixou-a”), as implicações que aquele sim havia de ter na sua vida, a coragem de calar os medos, de não pedir contas dos mistérios de Deus.
Maria tem sido para mim um exemplo neste sentido: “Ela guardava todas as coisas no coração”. Apesar de não entender.
Confesso que, às vezes, me faz impressão a serenidade desta mulher face às respostas de Jesus. Exemplo disto é a perda e o encontro do Menino que, afinal, está no Templo entre os Doutores, a “tratar das coisas do Pai”.
Maria, aflita, calou as suas palavras. Ela sabia que aquilo tinha de ter um sentido. Porque eram coisas de Deus. E ela confiava. Plenamente. E mais, ensinou-nos e ensina-nos a confiar. Também plenamente. E ter fé há-de ser isto.
O outro aspecto que me apaixona nesta Senhora de mim é a sua atenção às necessidades dos filhos. Ela sabe o que nos falta e “roga por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte”.
Maria é a que se põe a caminho. É Ela que vai ao encontro dos que precisam: vai ter com Isabel que precisava dela; em Caná, nas bodas, está atenta. É Ela que pede a Jesus:
- Filho, não têm vinho! e vinho é tudo o que nos falta: pão, dinheiro, saúde, trabalho, esperança, coragem, um sentido para continuar aqui.
E, depois, indica o caminho. Exactamente da mesma maneira que se tinha atirado no abismo de Deus, na hora do anjo:
- Fazei o que Ele vos disser!
Maria indica o caminho de Deus. Proporciona o nosso encontro com Cristo.
Em Fátima, acaba por ser a voz do céu que volta a indicar o caminho para a salvação:
- Fazei o que Ele vos disser.
E o que Ele diz é apenas isto:
- Enchei as talhas com água.
Que é o mesmo que dizer:
- Enchei o coração com amor.
Isto é,
- amai-vos uns aos outros!
Porque quem tem as talhas cheias, derrama-as, transforma a água em vinho, permite que se operem os milagres.
Nossa Senhora liga a terra ao céu. Ela é a maneira de chegar a Deus ou de Deus chegar aos homens.
Quanto a mim, a atitude de Maria nestas bodas definem o seu papel na Igreja. Ela aponta o caminho da salvação.
Maria é uma escola de amor. Ela é a Mãe. E ensina (a mensagem de Fátima é disso testemunha) que só o amor pode mudar positivamente o rumo da história.
Finalmente, a hora da cruz. Nesse dia, Maria está de pé junto da cruz de Jesus. Ninguém a ouve gritar. Ninguém lhe sente o desespero de Mãe, ao lado do Filho quase morto. Ninguém.
Nesse dia do Calvário, Jesus faz o Seu Testamento: entrega-nos à Mãe:
- Mulher, eis o teu filho!
E nós fomos João, o discípulo amado.
Depois disse a João:
- Eis a tua mãe.
E nós éramos João. Outra vez.
Já não estávamos sós. Maria ficaria sempre connosco, mesmo nas horas da cruz. Daí para a frente, Ela estaria, também de pé, ao lado da minha cruz, das nossas cruzes de todos os dias, segurando as mãos que nos vão caindo, limpando as lágrimas que vamos derramando, cobrindo - nos com o céu do seu manto.
Sabe-se, porém, que há um depois deste momento: ”a partir daí, o discípulo recebeu-a em sua casa.” João. Nós.
É, portanto, nossa obrigação fazer o mesmo: recebê-la em nossa casa, no nosso coração, na nossa vida. Há um poeta que diz que “a minha casa é onde mora o meu coração”. E receber a Senhora em nós implica arranjar-lhe um lugar, ter tempo para Ela, dar-lhe o melhor do que somos.
Esta passagem da Imagem Peregrina é um pouco símbolo deste acolhimento. Preparámos a terra, iluminámos os caminhos, viemos para a rua para nos deixarmos fixar pelo olhar de Maria que nos deixou “o céu mais perto”, como afirmou no dia 12 de Outubro, D. António Carrilho.
Nestes sete meses, acolhê-la é acertar os nossos passos com os dela, é acender a esperança que alumia as nossas noites, é deixar que os nossos lenços brancos sejam asas e lhe levem os nossos beijos, é deixá-la ficar connosco no para sempre da nossa vida. Só assim alcançaremos todos os milagres de que precisamos.
E pronto. Antes de me calar e de dar a palavra a quem sabe disto, vou pedir licença para ler um dos textos que fazem parte da exposição itinerante que está a acompanhar a imagem da Senhora pela nossa terra.
Mãe,
guardei o meu coração para te oferecer nestes tempos em que vieste visitar-me. Trouxe-te a luz dos caminhos, o canto dos peregrinos, o silêncio das noites. Trouxe-te o melhor de mim, apesar da vida e do tempo e do medo. Trouxe-te quem sou: às vezes sorriso, às vezes desespero, às vezes abraço, às vezes solidão.
Vim, Mãe Santíssima, porque em ti encontrei a minha casa. Mesmo quando a noite me apagou a esperança, quando a dor me choveu nos olhos e me derramei no chão. Vim, Senhora de todos meus passos, porque sempre houve lugar para mim no abrigo azul do teu manto, na ternura branca dos teus silêncios, nas palavras caladas, guardadas na cruz do teu Filho.
Senti-te à beira da minha cama, nos momentos de pedra; senti-te estrela, nas alturas de alegria; senti-te presença na hora das lágrimas.
Por isso, só me resta colar os meus olhos aos teus, as tuas mãos às minhas e agradecer-te, da pequenez da minha humildade por nunca teres largado o meu coração.
Senhora de Fátima, peço-te, esta noite, aquilo que eu, no segredo de mim, pedia à minha mãe antes de dormir: Se eu me perder, encontra-me. Ámen.
Que, neste século louco e solitário, a gente aprenda com a Imagem da Senhora de Fátima a elevar as mãos para o céu, mas a pousar os olhos nos irmãos.
GRAÇA ALVES
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A Magia da Noite de Natal
Por incrível que pareça, quase não recordo de como passava em casa, excepto de uma boneca que acarinhei durante toda a minha infância, tirada do sapato posto na chaminé antes da ida para a missa – do - galo. Nunca esqueci, pois foi mesmo o Menino Jesus que ma deu por me ter portado bem, uma vez que ninguém ficou em casa para a colocar lá. Até hoje vivo com este sonho, pois a minha mãe (só pôde ser ela) nunca contou o segredo.
Era na Igreja da aldeia que estava toda a magia daquela noite!... Apinhada de gente (muitos que durante o ano não iam à igreja, nessa noite faziam questão de marcarem a sua presença) para vivenciarem mais uma vinda do Menino Jesus. Todos, às escuras e silenciosamente faziam a ligação com Belém que para mim situava-se no Céu… Os olhares fixavam-se no púlpito à espera do Divino que a qualquer momento surgiria…O coração palpitava….lá surgia aquela figura resplandecente, em forma de anjo que com voz melodiosa anunciava o Nascimento.
As luzes acendiam-se todas, os sinos da Igreja repicavam arduamente, ouviam-se coros celestiais de todos os pontos da igreja feitos por anjos, pastores etc. No entanto, era no presépio que ficava, agora, toda a concentração. Como o Menino era doce, sorridente, amável e sobretudo lindo!... Queria brincar com Ele, não O deixar sozinho, pois talvez teria medo quando fechassem as portas da igreja e apagassem as luzes…. O resto da missa, para mim, era insignificante.
Vinha a parte, digamos profana, embora relacionada com a quadra natalícia – as romarias. Estas eram preparadas com alguma antecedência por cada sítio ou grupo. Estes entoavam cânticos, ao som de variadíssimos instrumentos e aproximavam-se do presépio com as prendas que lá deixavam ficar.
Um pouco de tudo aparecia ali:” cebolas,” semilhas”, batatas, couves, abóboras, ovos e galinhas de tudo trouxemos, Menino Jesus”. A música era quase sempre adaptada de outras canções. O pároco recebia comestíveis caseiros, nessa noite, que dava para viver despreocupado quase todo o ano. A melhor febra do porco e fruta ia ali parar – tudo era dado com a melhor vontade e até satisfação.
O pároco, em voz firme, agradecia e a todos desejava “umas boas festas” não esquecendo os filhos da Terra emigrantes… Aqui, por quase todos os rostos corria uma lágrima de saudade, mas tinha de ser – era para melhorar a vida que nesse tempo então era bem difícil.
Todas as cerimónias terminadas, o povo, completamente extasiado, regressava a suas casas para celebrarem em família o grande dia – não se visitava nem recebia visitas. Só o amor dos familiares directos vibrava no coração de cada um. Os abraços e beijos multiplicavam-se ou então dormia-se para retemperar a energia perdida durante a Grande Noite.
Que saudade tenho de viver o Natal desta maneira. Como desejo que cada criança, dos nossos dias, possa viver profundamente o Natal...A quem cabe esta missão? Fica ao livre arbítrio de cada um.
Cecília Pestana
membro do roinesxxi
(23.12.2009)
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O VALOR DO SILÊNCIO
Que grite, bem alto, o que ao longo da sua vida, nunca ouviu frases como: Era melhor estar calado; quem cala consente; o segredo é a alma do negócio; cão que ladra não morde; um minuto de silêncio, vale mais do que mil palavras; guardava tudo no seu coração; etc. etc.
O silêncio é tão prolixo; quer em palavras, actos e sobretudo em omissões… Ele enfrenta majestosamente: o amor, o ódio, a dor, a vergonha, a miséria e mais e mais….O cansado do barulho, procura-o no deserto, na montanha, no lago, no mar e …O velhinho sorri, de olhos fechados e fala e fala, sem que ninguém o ouça. A turbulenta criança encanta a todos, quando resolve silenciar. O amor mais sentido, mais amado tem o seu auge no silêncio. O ódio também se refugia muito nele, desesperando e despedaçando tantos corações. A indiferença é sua aliada desde os primórdios da existência humana (Como faz doer! como maltrata e degenera o mais puro e corajoso ser).
Silêncio - palavra tão antagónica! Precedente dos melhores discursos, das maiores descobertas, mas também de grandes atrocidades. Silêncio que tanto aproxima, como afasta. Silêncio que é interpretado ao livre arbítrio de cada ser…Silêncio que tanto se deixa esmagar, como coroar de êxitos – deixa sempre o tempo falar por ele. Como és tão grande, silêncio!.. Fala, por favor, sobretudo nesta quadra natalícia: aos pobres de espírito, aos que têm sede e fome de justiça, aos corações empedernidos pelo ódio, ciúmes, inveja ou malquerença. Diz ao ódio que se transforme em amor; segreda ao solitário que procure companhia, que não tenha medo de dar-se aos outros; sinaliza ao torturado inocente que não desanime; dá força à criança, no ventre materno, para gritar, bem alto - “quero nascer”.Diz ao pedófilo que uma criança é para admirar e não, maltratar.
Silêncio! Fala, porque eu escuto. Às vezes compreendo-te tão bem!...Quero ser tua amiga. Sintonizo-te, sempre com agrado, na canção que te eternizou “SILENT NIGHT”. Louvo o autor que a fez, como um hino de louvor à Mágica Noite de Natal.
(20.12.09)
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A MATANÇA DO PORCO
Como me lembro de tudo tão bem!
O dia da Imaculada Conceição – 8 de Dezembro - era o marco indicativo que “o porco da festa” tinha os dias contados. O núcleo dos matadores apertava-se, pois eram muitas as solicitações para a faca ser “espetada” no animal. Toda a casa era envolvida nos preparativos:
Pequeno almoço, alguidar para apanhar o sangue e restantes ingredientes para o seu preparo - era a primeira coisa a ser comida, como uma das melhores iguarias. Toda a aldeia era desperta com os “guinchos” de mais um que já tinha o seu destino certo.
Confesso que sempre me impressionaram aqueles gritos dilacerantes e nunca consegui observar aquele acto mortífero. Só começava a fazer parte da festa, quando já via fogo por cima do animal jacente e esticado. Os homens exerciam funções específicas: queimar, raspar, lavar, tirar o “debulho”, abrir o costado (para medir o grau de gordura que se demarcava por uma batata crua, sem casca que cuidadosamente era colocada entre o corte feito), dependurá-lo na loja (onde já tinha um gancho de ferro no tecto feito só para isto).
O culminar desta função surgia com um véu ( tirado das suas entranhas, penso que dos intestinos), que era colocado nas patas dianteiras para adorná-lo. Estava assim preparado para ser admirado pelos amigos , vizinhos que propositadamente vinham ver “o porco”. Por outro lado, as mulheres encarregavam-se: do almoço, (fígado, pulmões guisados à maneira), da lavagem do “debulho”, de assar nas brasas a “passarinha”-que era saboreada por todos os presentes. Quanto às crianças, saltitando por todo o lado, estavam simplesmente felizes.
Numa segunda etapa, já à noite ( antes de existir luz eléctrica, era debaixo de holofotes), o porco era desmanchado . Com a carne muito gorda faziam-se os torresmos; da magra preparava-se a carne vinho e alhos (muito típica na ilha). Desta ainda se tirava parte para encher as tripas para o chouriço (linguiça). Uma grande salga comportava o resto da carne - cabeça, patas, costelas etc. que encharcadas de sal e devidamente tapada servia para ser consumida, paulatinamente, ao longo do ano. Na casa tudo girava à volta do porco: as suas tripas( Intestino grosso) e a linguiça eram postas no fumeiro ; os torresmos, feitos da carne mais gorda e a banha guardavam-se, em recipientes próprios, para o consumo. O estômago, bem preparado, para fazer a tão conhecida” dobrada”.
Com todo este aproveitamento, havia carne durante o ano todo.
O porco era uma fartura, como se expressavam os mais velhos.
Hoje são raras as pessoas que se dão a este trabalho. Quem quiser comer carne de porco tem de a comprar no talho, Só alguém, mais agarrado à tradição, é que ainda se dá ao luxo de matar um porco mas….o maçarico, alimentado a gás, substitui a chama (ramos de urze secos); a serra eléctrica, as grandes facas de então; e sobretudo a alegria deu lugar à melancolia. Que pena! (14.12.2009)
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Para os madeirenses
sem missas do parto não há Natal
Manda a tradição que nos nove dias que antecedem o Natal, o povo madeirense participe activamente nestas missas. Por que nove? Precisamente para que cada uma represente um mês de gestação do Menino Jesus no seio da Sua mãe.
Estas missas são muito peculiares e únicas, a nível mundial. Procedem-se da seguinte forma: Em cada paróquia organizam-se atempadamente os ensaios, enfeites da igreja e arredores, havendo um festeiro (pessoa que se encarrega dos gastos) em algumas paróquias. No caso deste não existir, a missa faz-se, na mesma, com a ajuda de todos os paroquianos.
A azáfama começa, de madrugada, com os sinos da Igreja a chamarem as pessoas para a devoção. Muitos, vindos até de longe, deslocam-se em massa, ao som de música típica (búzios, campainhas apitos, chocalhos e cantares), despertando até os mais dorminhocos. Eis que velhos, novos e crianças (por vezes até o cão) acolhem, alegremente, o chamado e ainda ensonados, chegam à Igreja. Aqui são acolhidos num ambiente festivo de cantares alusivos à quadra. Segue-se, ainda noite escura, a novena solene ao som do órgão e outros instrumentos musicais. Logo vem a missa do parto, bastante vivida, ao som de melodias e cantares, conhecidos por todos. Cada ano os párocos reúnem-se antecipadamente com o Bispo da diocese para decidirem qual o tema a ser tratado nas homilias – assuntos relacionados com a família são os mais escolhidos. O Sr. Bispo faz questão em participar em todas as cerimónias, ainda que em paróquias diferentes a fim de solenizar ainda mais. O Posto Emissor do Funchal encarrega-se de transmitir a missa pela rádio para aqueles que pesarosamente não podem assistir “in loco”.
Mas o ponto alto destas missas aparece no final, onde, ao som das campainhas, (que surgem, quase por magia), a tocar, em uníssono, pelos participantes. Todos cantam euforicamente : “ Virgem do Parto, ó Maria, Senhora da Conceição, dá-nos as Festas Felizes, a paz e a salvação”. Surge então uma ovação emocionada!... A alegria, estampada no rosto das pessoas que se cumprimentam com beijos e abraços, bem apertados, não passa despercebida a ninguém.
A festa continua no adro da igreja. Agora junta-se também o profano: os comes e bebes – licores caseiros, cachaça, vinho madeira regam as gargantas. Os docinhos próprios da ocasião, a canja e a típica carne de vinho – e - alhos também fazem parte da festa. O Presidente da Junta de Freguesia oferece um pequeno-almoço onde não falta a canja, cacau, bolo de mel e poncha a todos os presentes, num dos nove dias anunciado previamente. Ao mesmo tempo começam os cantares e bailaricos em consonância com os instrumentos musicais que a propósito, vêm abrilhantar estas festividades. O “despique” é preparado por determinados grupos que chegam a deslocar-se de igreja em igreja, só no intuito de animarem. Há grupos que fazem questão de percorrerem nove igrejas diferentes (uma em cada dia) para no final anunciarem a missa de sua eleição. Para muitos madeirenses, o Natal sem missa do parto, não tem sentido nenhum. Portanto esta tradição veio para ficar. A um madeirense, falar de Festa, equivale a dizer simplesmente NATAL.
(10.12.2009)
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Conto de Natal: "A casa encheu-se de luz..."
Já lá vão vinte e cinco anos! Parecem muitos, vistos cronologicamente, mas tão poucos, se olhados a nível de sentimentos, recordações, vivências e tudo quanto se possa dizer a esse respeito.
Tudo foi calculado e esperado com nove meses de antecedência. Cada dia que passava era um novo fôlego de vida e esperança. Os meses nunca tiveram um significado tão grande. Cada um determinava uma fase concreta do ser que eu entranhava e delicadamente passava a missão da obra inacabada para o seguinte. Dezembro era o auge. Cada vez parecia mais resplandecente e desejado em plenitude. O presépio foi antecipado para que não ficasse por fazer. A árvore de Natal foi montada ao mesmo ritmo. A casa encheu-se de luz e calor. A alegria era cada vez maior. Os dias e as noites pareciam mais longos!... Os cinco sentidos estavam num alerta máximo para reagirem ao mais leve sinal de alerta. Por fim, Dezembro chegou! O dia, a hora? - Uma incógnita.
As previsões apontavam para depois do dia doze. Ainda havia algum tempo de espera…
Eis que chega o dia quatro. Alguém bate à porta. Avidamente quis saber quem era. Oh! Como é grande! Que linda! Que perfeita! Parece-se com….e mais e mais. Tudo ouvia, atónita e serena, mas guardava tudo bem no fundo do meu coração. Era a vida no seu máximo esplendor, a continuação da minha vida, a carne da minha carne e o sangue do meu sangue -Em suma-o amor em carne e osso. Era a minha filha, ainda sem nome. Nesse ano, o Natal girou todo à sua volta: O Menino Jesus participou activamente em tudo, sobretudo no meu coração agradecido. À meia - noite, do dia vinte e cinco, lá estávamos, na Igreja, com o tesouro para apresentá-lo no presépio. Foi mesmo emocionante. Era o meu primeiro Natal de mãe. Tudo era alegria, perfeição e felicidade completa.
Este Natal está e estará, para sempre, guardado na minha memória, quase como o único, o máximo. Parabéns filha por mais este aniversário. Que sejas sempre muito feliz. Amo-te muito.
Cecília Pestana (04.12.2009)
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O amanhã parece longínquo
Muitos dias da nossa vida sentimo-nos tristes. Impotentes ante a saudade, o ressentimento, abandono e a dor-física ou moral que facilmente nos atinge. Ninguém pode escapar a estes dias ou horas nostálgicas e às vezes, persistentes.É aqui que o amanhã parece longínquo, que o mundo perdeu o seu colorido, que as pessoas, até as amigas, deixam-nos vazios-simplesmente sós..... Como preencher esta lacuna? Tentarei partilhar o que me foi gratuitamente dado a conhecer por uma pessoa cheia de Deus e totalmente dedicada aos outros.
Um exemplo será a melhor forma de passar a mensagem. Tenho um filho(a) que se encontra fora do meu alcance, sujeita(o) aos perigos eminentes a toda a hora e momento, o meu coração em sobressalto...o telefone que não toca...o email que não aparece-numa palavra" incomunicada" Que fazer para viver, o melhor possível,nesta situação? O meu coração está ferido, tem já algumas cicatrizes.... Não consigo lidar com alguém que me magoou profundamente etc. etc.Estou de mãos atadas , a braços com a depressão... Nestas circunstâncias apelo para o grande Coração de Jesus, onde circula "o Sangue Redentor" que na sua infinita misericórdia consegue absorver todas as coisas e peço-Lhe que tome conta "daquela situação", que está descontrolada nas minhas possibilidades e que faça, por mim, tudo o que for melhor.Que absorva o meu coração ferido, doente e que o transforme, bem como o daqueles que me são caros, pois Ele é o único ser que pode fazer isso a todo o momento: tem o dom da Equidade -pode estar onde quer, tem o dom da cura. Enfim todos os dons estão na Sua posse. É assim- despojada,vazia, de válvulas abertas ao infinito, ao que está fora do nosso alcance que podemos encontrar a Paz.
Não sei se consegui passar a mensagem. Por vezes torna-se difícil deitar para fora o que nos vai na alma. ...Tentei....para quem não consegue perceber, peço a Jesus que o faça por mim... A minha intenção foi pura e simplesmente ajudar a todos quantos estão em contacto com o nosso blog.
Um bom dia, cheio de amor, paz e muita tranquilidade. É o que sinceramente desejo a todos os leitores deste artigo.
(23.09.09)
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Reflexões: Todos eram tão importantes…
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Pelos trilhos do Rabaçal
2 de Agosto 2009
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A liberdade de pensar... de interagir e de amar
Hoje os meus neurónios começaram a funcionar cedo.É mais um dia que vem pela frente. O primeiro para muitos que deram um grito a dar as boas vindas a este mundo. Para outros foi a sua última noite. Quem poderá estar melhor? Eis a questão.
Tantos sábios, escritores, cientistas, crentes e descrentes já fizeram a mesma pergunta. As respostas são sempre evasivas: aceites por uns, renegadas por outros e ainda incompletas para muitos.No entanto isto que apelidamos de vida, quer queiramos quer não, continua e até precisa de respostas.
Estas, se são dadas de imediato, classificam-se de irresponsáveis. Se tardam em chegar, também são catalogadas de hesitantes. Entretanto o homem passa, espreita, tenta compreender e já deveras cansado, porque o cérebro não auguenta, adormece. O novo dia chega e é repetitivo.
É este novo dia que começa que ofereço a todos os meus amigos e desejo que o passem da melhor forma possível. Que sejam bafejados pela fé, movidos pelo amor e encontrem a mão amiga de Deus que sabendo tudo, nos deixa a liberdade de pensar.....de interagir e de amar.Um bem haja a toda a humanidade neste 17 de Julho de 2009.
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Ressurreição de Cristo (Páscoa)
(10.04.2009)
- Dia muito especial para os católicos e todos aqueles que acreditam que um dia um homem,de 33 anos ,.chamado Jesus Cristo,entregou-Se para morrer da forma mais vil da época-a morte de Cruz. Tipo de morte só usada para aqueles que cometiam crimes muito graves É Essa morte que hoje comemoramos e que culmina com a Ressurreição.
Quer queiramos quer não, essa morte existiu, ficou registada na história, foi referenciada por muitos e pode ser investigada por quem quiser.Esse Jesus Cristo, impostor e intrometido para uns, salvador, bem-vindo e querido para outros. Hoje são aos milhares/milhões as pessoas que se dedicam totalmente à Sua causa, a defendem e se necessário arriscam a sua vida por Ela.
São jóvens, velhos e de todas as classes sociais- aqueles que O veneram, amam, recomendam e se encontram unidos a Ele em todos os momentos da sua vida.É Ele que nunca nos deixou sós e que marca a Sua presença em cada homem que existe neste mundo, sem excepção de raça ou cor-até os descrentes, são abençoados e amados por Ele.
Às vezes é incómodo dar-Lhe ouvidos, pois ele é exigente e fala-nos baixinho para nos aconselhar.Nem sempre é fácil ouvi-Lo e mesmo fazer-Lhe caso, mas vale sempre a pena e acabamos por ser bem recompensados quando fazemos as coisas segundo a Sua vontade...
Que este dia seja de reflexão para todos , sobretudo para os cristãos.
Uma feliz Páscoa para todos os meus amigos, Cecília Pestana.
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Visita ao Fanal
(07.05.2009)
Esperava com uma certa ansiedade por este dia que íamos passar no Fanal. Não conhecia o lugar, embora já ouvisse falar dele muitas vezes. Novamente a sentir-me criança....o preparar a merenda, o encontro com os colegas. Até o supermercado pareceu-me divertido. Aí estava, despreocupada, sem pensar no que queria comprar, nem sequer ajudar a meter as coisas nos sacos....
Mas foi a chegada à cancela que deu acesso à nossa entrada, um momento inesquecível: a paisagem deslumbrante das árvores ancestrais que certamente já presenciaram muita coisa interessante; a água cristalina a sair da torneira para nos matar a sede; as vacas e companheiros a pastarem tão tranquilamente e a nos segredarem "somos felizes aqui". Todos compreenderam que esses animais deveriam seguir na sua rotina, embora eles nem dessem pela nossa presença.
Começou então a maratona do passeio pedestre. Quer descendo ou subindo, sentia-me livre....as nuvens suportavam-me completamente. As figuras ancestrais estavam lá para cada um imaginar o que eram e o que já foram. Cada um interpretava -as à sua maneira. Tudo saíu na perfeição. Quando a maior parte chegou `a churrasqueira já o lume crepitava, estonteante e dançava para nós ao som da música mais melodiosa que alguma vez ouvi. Os cavalheiros esmeraram-se e fizeram tudo sozinhos-Um muito obrigada da parte de todas as presentes. A espetada estava deliciosa e o convívio foi deveras agradável. Nós entramos em harmonia com todo aquele espectáculo que a natureza nos reservou. As núvens anunciaram-nos a hora da partida, subindo encosta acima para se despedirem de nós. Fizemos-lhes a vontade e regressamos.
O curioso foi quando cheguei ao Funchal,o sentimento que tinha mais do mesmo: movimento de carros e pessoas, semblantes carregados a regressarem do trabalho diário, pessoas a deambular pelas ruas desarticuladas umas das outras..Enfim- foi a cidade que senti naquela tarde de 7 de Maio de 2009. Cecília Pestana
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João Godim
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