D. XIMENES BELO, BISPO DE TIMOR-LESTE, NOBEL DA PAZ
A partir de hoje, o ROINESXXI inicia um espaço dedicado a entrevistas com personalidades de vários quadradantes sociais e que estejam, directa ou indirectamente, relacionadas com o "Mundo Sénior", com os seniores do século XXI. O primeiro entrevistado é D. Ximenes Belo, 61 anos de idade, Nobel da Paz em 1996. Uma personalidade marcante na vida mundial, disponível para partilhar com os ronesianos os ideais dos seniores.
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Depoimento exclusivo para o ROINESXXI
SABEDORIA E EXPERIÊNCIA DOS SENIORES
-"Os seniores nunca estão a mais na sociedade. Os mais velhos, os mais idosos, têm a sabedoria e experiência. Por vezes, há o choque de sensibilidades entre novos e seniores, mas todos temos de aprender uns dos outros. Dos jovens, aprendemos a esperança, a ousadia, o entusiasmo, a aventura. Dos seniores, aprendemos a sabedoria, a sapiência, a guardar a memória e, sobretudo, a transmitir aquilo que é positivo e que vale para todos os tempos".
D. Carlos Filipe Ximenes Belo (13.11.2009)
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FRASES de D. Ximenes Belo
- "O mundo não sabe de nada. Timor é um caso de desconhecimento mundial exactamente como foram os campos de concentração na época da guerra. Depois, todos se chocaram, mas já era tarde."
- “O sofrimento não é exclusivo do passado”.
- “Não há paz se não houver respeito das diferenças de ideias, pensamentos, religiões, maneiras de ser e estar no mundo, como hoje infelizmente vemos acontecer em várias regiões do Globo”.
- "O povo de Timor é de óptimos sentimentos, é grato, simpático e de bom convívio”.
NB: A independência de Timor-Leste, aconteceu a 20 de Maio de 2002. O massacre no cemitério de Santa Cruz foi a 12 de Novembro de 1991
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JORNAL DA MADEIRA
D. Ximenes Belo, entrevistado pela jornalista Vera Luza, 16.11.2009
JM - A experiência que aqui se vive em termos de autonomia e de políticas poderá servir de modelo para a sua terra natal?
DXB - Cada terra tem as suas condições próprias. A situação da Madeira é diferente da de Timor-Leste, mas o problema do desenvolvimento em favor de todas as populações é uma matriz base que tanto o Governo Regional como o de Timor-Leste devem aplicar para o bem de todos.
JM - Timor-Leste é um país seguro, com a população apostada no melhor futuro?
XB -Seguro, sim. Não há mais conflitos como houve no passado, há mais tranquilidade, calma. O problema, agora, são os investimentos, como fazer indústrias e fábricas para dar trabalho aos mais jovens. Isso é que interessa.
JM - As ajudas de Portugal fazem-se sentir neste momento?
XB - Portugal está a ajudar, mas insisto sempre na consolidação da língua portuguesa. Na Constituição de Timor-Leste são duas as línguas oficiais: o tétum e o português. Por outro lado, por causa de circunstâncias várias, existem também duas línguas de trabalho: o indonésio e o inglês. Em Díli, concretamente, a pessoa fala a língua que mais entende e o estudo do português está a custar um pouco, sobretudo entre aqueles jovens que aprenderam durante os 24 anos de domínio indonésio.
Além disso, Timor tem 24 dialectos oficiais. As crianças falam o português nas aulas, mas fora da escola cada um fala a sua língua. É preciso investir mais, através da literatura, dos livros, da televisão, dos jornais. Por exemplo, nota-se que a TV indonésia entra nas casas com maior facilidade do que a RTP internacional, enquanto que a língua portuguesa marca passo.
Claro que Portugal investe com o envio de professores para a universidade, para as escolas secundárias, para formação de docentes timorenses, mas é preciso fazer mais.
JM - Os timorenses continuam ter “alma portuguesa”?
XB - Sim, desde há 450 anos. Isto já foi caldeado nos séculos XVII, XVIII e XIX, na convivência com os missionários, com as autoridades oficiais. Muitos reis espontaneamente se ofereceram para serem aliados de Portugal e prestaram vassalagem à Coroa portuguesa. Podemos dizer que o timorense na sua alma tem parte desta cultura católica, lusa, e convém manter sempre esses laços culturais, religiosos e históricos.
JM - A acção da Igreja continua a ser importante, como foi para a independência do território?
XB - Creio que continua actual, embora as condições sejam outras. Antes, no tempo da Indonésia em que eu lá estava como Administrador Apostólico, não havia instituições capazes de canalizar as aspirações do povo a não ser através da Igreja Católica. Não havia partidos, não havia instituições políticas, tudo era controlado pela Indonésia e, por isso, a Igreja fazia ouvir a sua voz defendendo os pobres, as pessoas exploradas, os direitos humanos, a paz, a fraternidade.
Agora, já há Parlamento, já há sociedade civil, Partidos, órgãos de Governo e, de certa maneira, os meus dois colegas, o Bispo de Díli e o de Baucau, pautaram mais o aspecto da formação espiritual, moral e pastoral das populações. Mas, claro, quando há assuntos importantes a tratar eles também dialogam com órgãos do Governo e participam também do desenvolvimento do país.
JM - A presença de missionários ainda é forte?
XB - Temos várias Congregações de Portugal - as últimas que entraram foram as Concepcionistas, as Irmãs Hospitaleiras e os Irmãos de São João de Deus, mas já lá estavam os Salesianos e os Jesuítas. Há também de outras nações - do Japão, Indonésia e do Brasil. Houve tentativas de aumentar mais o número de muçulmanos, durante o poder indonésio, mas os timorenses sempre quiseram manter a sua identidade cristã.
JM - O senhor Bispo veio agora à Madeira para homenagear o capitão Armando Pinto Correia, que foi adminstrador de Baucau entre 1928 e 1934. Uma grande referência para si?
XB - Sim, porque os meus pais andaram na escola fundada em Baucau e noutras localidades por Armando Pinto Correia. Quando era criança e adolescente, em casa a minha mãe falava muito deste administrador e muitas outras pessoas que andaram nas escolas do reino. Dessas escolas saiu um escol de timorenses que depois se veio tornar gente culta; muitos deles se tornaram chefes e régulos, e também funcionários, enfermeiros, guarda-fios, intérpretes;outros fazendo a sua vida particular, mas todos saíram daquelas escolas de Armando Pinto Correia. E foi pena que algumas delas, com a invasão da Indonésia, tenham ficado destruídas.
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JORNAL HORIZONTE
- Entrevista a D. Ximenes Belo, 27.10.2009
Confie-nos um episódio ou um cenário da sua infância a que atribua especial relevo.
D. Ximenes Belo - Bem, são vários. Agora não sei qual é o mais importante. Pronto, a gente vivia na aldeia, éramos seis. O meu pai morreu cedo e foi a nossa mãe viúva que nos criou. Aquilo que me surge neste momento é a devoção que tínhamos por Nª Sr.ª de Fátima. Nas aldeias havia o costume de rezarmos o terço todas as noites.
Na nossa casa havia um cantinho, um oratório e a nossa mãe obrigava-nos (a cada um dos filhos) a dirigir o terço por noite. Nessa altura - 1955/56 - rezávamos muito pela Hungria que tinha sido invadida pelas tropas russas. A 13 de Maio, na diocese de Baucau, fazíamos procissão a Nª Sr.ª de Fátima. São esses os momentos mais marcantes.
H - Nunca foi alvo de reparo ou censura pela hierarquia da igreja católica quando a sua cumplicidade com a guerrilha em Timor-Leste era notória?
X. B. - Passou de uma pergunta sobre a minha infância para outra mais política.
A Igreja tem a sua missão de anunciar a verdade, falar da justiça, dos direitos humanos. No tempo em que eu estava à frente da Diocese (Díli), nós éramos a única entidade que tinha uma certa liberdade para falar dessas coisas sabendo que havia riscos. Mas quando a realidade concreta o exige, não havia outra solução.
H - Considerando que o prémio Nobel foi instituído no principio do séc. XX e Mahatma Gandhi viveu até 1948, afigura-se-lhe que a este indiano líder ímpar da libertação pela não violência, também deveria ter sido atribuído o galardão Nobel da Paz?
X. B. - Essa é uma pergunta que bem podia ser feita ao Comité Nobel da Paz. Eles é que deviam responder a isso e não eu.
H - Sofreu represálias das autoridades indonésias pela solidariedade dispensada às vítimas do massacre no cemitério de Santa Cruz?
X. B. - Físicas, não. Mas, pronto, havia outras medidas que eles tomavam para comigo, seguindo-me todos os passos; travavam conferências e palestras que eu fazia aos jovens, aos catequistas, às famílias, quando visitava as paróquias. Estavam sempre presentes em todas as sessões. Depois, de noite, o comando discutia o que é que se tinha falado lá. Bem, controlavam-me. Naquela altura ainda não tínhamos telemóvel. Não sabia manejar o telemóvel nem o computador, apenas aprendi aqui.
Nós ao mesmo tempo que falávamos para a Rádio Renascença de cá, eles gravavam. Abriam as cartas e liam. Era um controle e uma pressão mais psicológica, mais moral.
Claro que depois de eu ter escrito aquela carta ao Secretário Geral da ONU, Perez de Cuellar em 1989, fizeram-me uma emboscada, mas graças a Deus escapei. Não aconteceu nada.
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João Godim
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